Viva melhor com menos

No início do século XIX, quando a economia dos Estados Unidos ainda engatinhava em direção ao que viria a ser a maior nação capitalista do planeta, o escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862) já questionava o consumismo desenfreado que tomara conta de seus conterrâneos.

No início do século XIX, quando a economia dos Estados Unidos ainda engatinhava em direção ao que viria a ser a maior nação capitalista do planeta, o escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862) já questionava o consumismo desenfreado que tomara conta de seus conterrâneos.

Desiludido com os rumos da “terra das oportunidades”, Thoreau trocou a vida na cidade por uma experiência de dois anos na Floresta de Walden, em Massachusetts. Em plena expansão da economia capitalista, ele buscava a simplicidade de viver em harmonia com a natureza. Nascia ali uma das primeiras vozes modernas a pregar a frugalidade. “Um homem é rico na proporção do número de coisas das quais pode prescindir”, escreveu Thoreau no livro Walden, a vida nos bosques, obra em que ele relata seu período como eremita.

Quase 150 anos depois, o despojamento perseguido por Thoreau parece enfim estar na moda – inclusive no Brasil. Ele é motivado, em parte, pela crise financeira mundial. A atual escassez de crédito pode encerrar o ciclo de esbanjamento dos últimos anos e dar início a uma nova era de austeridade. Antes do estouro da bolha forçar um basta à extravagância, porém, outros filósofos do cotidiano se propunham a recuperar e atualizar teorias parecidas com as de Thoreau – e também com as de clássicos como os gregos Aristófanes e Epicuro. São ideias que propõem uma revisão radical das escolhas e dos hábitos de consumo. No lugar da gastança, o comedimento.

Epicuro de Samos (341 a.C.-270 a.C.) foi o filósofo que propôs uma vida de prazer como chave para a felicidade. Mas o prazer de Epicuro não é o dos excessos, como no hedonismo. O prazer a que ele se refere é espiritual, algo que se relaciona ao passado e se desdobra no futuro. O prazer imediato, na outra ponta, está associado ao materialismo e ao consumismo e, segundo ele, deveria ser evitado.

Epicuro dividiu os desejos em categorias.

A primeira é composta dos “naturais e necessários” como a nutrição, o sono e a reprodução. Também entram nessa categoria o desejo de se proteger e o de ser feliz.

Os desejos “frívolos”, segundo Epicuro, seriam os não naturais e não necessários, como a ambição, a riqueza e a glória. A imortalidade ocuparia uma categoria particular, por ser um desejo irrealizável.

Segundo Epicuro, o sábio satisfaz apenas aos desejos necessários, que exigem muito pouco. Para alcançar a liberdade e a paz como bens supremos, o indivíduo teria de renunciar a todos os desejos possíveis e vigiar-se contra as surpresas irracionais do sentimento, da emoção e da paixão.

O objetivo é ter o corpo são, satisfazendo às necessidades básicas, e a mente sadia, para viver tranquilo e não ter o espírito perturbado. “O desejo é inimigo do sossego”, dizia Epicuro. Para ele, a sociedade deveria aprender a usar objetos que criava, sem que eles a escravizassem.

A mesma lição já havia sido ensinada por Aristófanes cerca de 500 anos antes de Cristo. Ele observou que os cidadãos atenienses se endividavam por não conseguir conter o desejo de consumir tecidos, joias e outros itens importados. A crise ética da Grécia democrática foi representada na peça As vespas, uma sátira sobre a má gestão do dinheiro público. Os cidadãos passaram a inventar processos nos tribunais para justificar o ganha-pão.  Consumiam cada vez mais, embora a produção não avançasse no mesmo ritmo”, dizia Aristófanes. A alavancagem grega levou à Guerra do Peloponeso – entre 431 a.C. e 421 a.C. – e a um vazio de valores. 

Descartar o supérfluo, é um dos mandamentos da nova frugalidade. Ele está ligado, como tantos outros, ao conceito de simplicidade voluntária, que define a tentativa de viver com mais tempo e menos necessidades. Esse conceito constitui um dos pilares da ideologia do novo milênio e tem sido muito útil quando se trata de lidar com os efeitos mais ásperos da crise econômica, sobretudo nos Estados Unidos.

Uma pesquisa da Booz & Company feita com mil consumidores nos EUA mostra que o orçamento apertado obriga a rever as escolhas de consumo. Segundo o estudo, caso a crise na economia se agrave – cenário inevitável nos próximos seis meses para dois terços dos entrevistados –, o aperto nas despesas começaria com cortes nos jantares fora de casa. Supondo uma diminuição de 10% na renda, 62% dos entrevistados disseram que deixariam de ir a restaurantes caros. Os cafés para gourmets, como os da rede Starbucks, um dos símbolos da nova economia global, seriam descartados por 35% dos entrevistados. Os bares perderiam 32% do movimento. Quase metade dos americanos que responderam à pesquisa reduziria as despesas com entretenimento, o que inclui concertos, jogos e exposições.

Além dos cortes pontuais, a pesquisa da Booz & Company revela uma mudança de valores. Entre as permutas que os consumidores se dizem dispostos a fazer está a troca de carros luxuosos que gastam muito combustível, como os SUVs, por carros menores, menos poluentes – e, se possível, híbridos, com propulsores a energia elétrica. Um em cada quatro entrevistados afirma que pretende adiar a compra do carro novo – enquanto 15% dizem estar trocando o carro que já têm na garagem por um modelo mais barato.

A gratificação emocional não tem nada a ver com o consumo de itens de luxo. Pelo contrário. Depois de seis anos de crescimento ininterrupto, esse mercado finalmente dá sinais de que entrará em recessão em 2009. Uma pesquisa da consultoria americana Bain & Company divulgada em novembro previa um crescimento de apenas 3% para o mercado de luxo em 2008. O número mostra a fragilidade de um setor antes considerado imune aos solavancos da economia – e às variações no humor de consumidores. Enquanto o mundo se deslumbrou com a opulência dos últimos cinco anos, o mercado de luxo cresceu a uma média de 10%. Diante do brilho perdido de joias, roupas e carros caros, o consumidor de bolso vazio passou a não ter opção exceto pensar racionalmente no destino de seu dinheiro. Apartamentos vendidos a exorbitantes US$ 150 milhões, no exclusivíssimo 15 Central Park West, em Nova York, um condomínio inspirado nas luxuosas construções da cidade na década de 1920, podem ter virado miragem depois que as Bolsas de Valores de todo o mundo esfacelaram fortunas.

No lugar das moradias opulentas, com aposentos até para os motoristas particulares, entra em cena uma nova tendência: o movimento “small house” (casa pequena, em inglês). Há cinco anos, quando o mercado imobiliário americano estava aquecido, a ideia de morar numa casa apertada não passava nem pela cabeça dos menos abastados. Com longos prazos de financiamento e juros baratos, os americanos povoavam os subúrbios com casarões cada vez maiores. A casa média americana cresceu 40% de tamanho entre 1982 e 2004, segundo o U.S. Census Bureau. O tamanho da moradia para uma família passou de 160 metros quadrados para 220 metros quadrados. Como um americano seria capaz de viver num espaço do tamanho de um quarto?

O conceito de moradia simples e descomplicada, no entanto, ganhou adeptos. O estouro da bolha imobiliária americana deu sentido a uma ideia que só fazia sentido a quem não tinha acesso ao farto crédito imobiliário. Um grupo de ativistas lançou a Small House Society (Sociedade da Casa Pequena) para promover os benefícios ecológicos e econômicos das minimoradias. Os modelos têm preços médios de US$ 40 mil e tamanhos que variam de 6 a 15 metros quadrados.

A filosofia por trás do movimento “small house” pode ter origem no pensamento de Sêneca (4 a.C. a 65 d.C.). Ele era rico, mas não desfrutava o conforto que seu dinheiro podia pagar. Bebia apenas água e dormia sobre um colchão duro. “O sábio não está obrigado à pobreza, mas experimentar o inverso nos torna mais humanos”, dizia. Na infância, Sêneca foi enviado a Roma para estudar oratória e filosofia. Em pouco tempo, chegou ao Senado. Foi durante seu exílio na Grécia que escreveu seus principais tratados filosóficos, entre eles Consolos, em que fala dos ideais estoicos clássicos, da renúncia de bens materiais e busca da tranquilidade da alma, o que se consegue com conhecimento e contemplação. Algumas máximas de Sêneca parecem fazer mais sentido hoje do que quando ele as escreveu, no século I: “Pobre não é aquele que tem pouco, mas antes aquele que muito deseja”; “A utilidade mede a necessidade: e como avalias o supérfluo?”; “Nunca ninguém enriqueceu com dinheiro” ou “Nenhum bem sem um companheiro nos dá alegria”. Sêneca pode ter exagerado na forma como condenava as comodidades da civilização, mas, se bem interpretado, seu alerta contra a ostentação e o desperdício poderia ter evitado dores de cabeça a quem se deixou levar pela ganância.

Ainda que a crise financeira atual não exija privações como as propugnadas por Sêneca, seus efeitos podem ser pedagógicos. A sociedade moderna está saindo gradualmente de uma era de exageros, do consumismo desenfreado para um tempo de mais reflexão, de menos opulência.

Em tempos de crise teremos que aprender a “fazer mais com menos” e realmente encontrar a felicidade nas “pequenas coisas”.

Bibliografia:
Revista Época, edição 555 de 29 de dezembro de 2008

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br