Sinalização: uma das soluções para a seleção adversa

Num cenário de presença de informação assimétrica entre os agentes, as transações econômicas acabam prejudicadas e na margem se extinguem. Portanto, é fundamental que sejam criados meios de trocas de informação a fim de que reduza-se a incerteza. Este artigo apresenta uma das soluções disponíveis para a seleção adversa: a sinalização.
A sinalização de mercado é um importante mecanismo pelo qual os agentes econômicos podem lidar com os problemas de seleção adversa em uma transação econômica. Neste caso, a parte detentora de informação privada enviará um sinal por meio de uma ação que seja observável pela parte oposta, sinalizando de modo crível a qualidade e o valor de seu produto ou serviço.
A moderna teoria da Informação tem aplicado as idéias de sinalização para diversas situações da vida econômica. Campos tão diversos como organização industrial, mercado financeiro, política econômica entre outros têm apresentado interessantes explicações para a atividade de sinalização.
Segundo Kreps (1994) a sinalização é uma possível solução para os problemas de seleção adversa, onde a parte bem informada sinaliza o que ela sabe por meio das ações tomadas. Por exemplo, uma companhia de seguros de vida pode oferecer melhores produtos, se o segurado aceitar benefícios menores nos primeiros dois ou três anos, pois alguém que sofre de uma doença grave e está para morrer não aceitaria este tipo de contrato, implicando numa auto-seleção dos segurados.
Para Coco (2000), os problemas de seleção adversa podem ser resolvidos através do uso de sinais que informem a qualidade dos diferentes Agentes envolvidos em uma transação. O uso de sinais permite uma filtragem e separação entre as partes de um contrato.
Conforme Stiglitz (2000) a literatura sobre sinalização tem fornecido um conjunto de conclusões que podem explicar uma série de questões presentes na economia, tais como bancos sinalizando sua confiabilidade pelo tamanho de seus edifícios-sede, acionistas sinalizando sua convicção que a empresa não está sobre-avaliada através da restrição do número de ações vendidas no mercado. Uma das principais preocupações das empresas atualmente é como suas ações serão interpretadas pelo mercado, ou seja, o tipo de sinalização que está sendo passada para os Agentes externos, por exemplo, através da política de dividendos e estrutura de capital.
Para Rasmusen (1992) sinalização é uma forma utilizada por um Agente para comunicar o seu tipo ou qualidade para outro Agente, sob influência do problema de seleção adversa.
Kirmani e Rao (2000) consideram sinais as ações tomadas por uma das partes de uma transação para revelar seu tipo ou qualificações verdadeiras. A sinalização da qualidade pode ser realizada de várias maneiras como marcas, reputação no mercado, preço praticado e gastos com propaganda.
Segundo Molho (1997) existem duas versões para sinalização: na versão padrão, a parte informada inicia uma seqüência de eventos, por exemplo, no caso do mercado de trabalho, o trabalhador escolhe um dado nível de educação e o empregador responde com uma determinada oferta de salário. Na versão alternativa, a parte desinformada inicia a seqüência de eventos, por exemplo, empregadores oferecem aos trabalhadores vários tipos de contrato (que especifica qual salário para cada nível de educação do empregado) e os trabalhadores responderão escolhendo o contrato preferido.
Macho-Stadler e Perez-Castilho (1997) fazem menção ao exemplo do mercado financeiro e como a sinalização funciona em dois níveis: para um gerente que conhece o valor de sua firma e quer mandar um sinal para o mercado (visando, por exemplo aumentar seu capital recebendo um preço justo na emissão das ações) e para o mercado, um sinal concreto é a ‘saúde financeira” da firma, o que incentiva o gerente desta a manter o endividamento em baixos níveis.
Spence (1974) lembra que os vendedores de bens duráveis emitem sinais para os consumidores a respeito de seus produtos para criar uma impressão favorável ou, mais precisamente para atingir as crenças probabilísticas sobre a qualidade de seus produtos.
Outro bom exemplo que onde os agentes precisam emitir sinais de credibilidade é o caso de produtores de novos bens. Existe a necessidade de induzir os consumidores a experimentar o novo produto. Baixos preços iniciais, ou elevados gastos de propaganda no lançamento do produto são métodos geralmente utilizados para introduzir novas mercadorias em mercados já consolidados.
Outro instrumento é a oferta de garantia por longos períodos, o que só pode ser disponibilizado por produtos de qualidade, caso contrário representaria pesados custos para a firma produtora. No caso de automóveis usados, onde o vendedor do carro de boa qualidade pode sinalizar para o comprador, dando-lhe uma garantia de devolução do pagamento, mais uma parcela pré-estabelecida, caso o carro for um limão. A mesma garantia não pode ser dada pelo vendedor de um limão, por razões óbvias.
Inicialmente a teoria da sinalização foi introduzida por Spence (1974), aplicando-o ao mercado de trabalho. Seu estudo se refere ao um sinal de qualidade, que é o nível de educação do trabalhador, cuja aquisição está necessariamente atrelada a um custo não só monetário, mas também físico como o tempo dispensado em aulas e leituras.
A mesma analogia pode ser aplicada para a política de pagamento de dividendos para acionistas em uma empresa. Os dividendos significam um custo para a empresa, pois ela está tirando dinheiro de seu caixa e entregado a seus acionistas. Contudo, existe um incentivo para este tipo de posicionamento, já que o pagamento de altos dividendos sinaliza ao mercado que a empresa em questão é lucrativa gozando de boa condição financeira. Desta forma, tais empresas estão aptas a captar recursos menos onerosos a medida que mais pessoas desejariam aplicar suas economias nela. Da mesma forma, empresas que estão em má situação financeira não poderão pagar dividendos, tendo em vista que, provavelmente, estão com dificuldades de caixa e isso implicaria na quebra da empresa. Logo, os custos seriam maiores que os benefícios. Portanto, somente irão pagar dividendos, as empresas que possuírem bons projetos de investimentos.
No caso do mercado de crédito, analistas de empresas buscam identificar sinais de que a postulante ao empréstimo apresenta boas condições de pagamento. Um dos sinais mais óbvios são os demonstrativos contábeis da empresa que apresentarão sua condição financeira atual, confirmando sua capacidade de saldar suas obrigações.
Portanto, sempre que for possível, a sinalização é uma importante fonte de informação, reduzindo portanto o problema de seleção adversa entre os agentes.

Bibliografia:
COCO, Giuseppe. On the Use of Collateral. Journal of Economic Surveys. v. 14, n° 2, 2000, p. 191-214.

KIRMANI, Amna e RAO, Akshay. No Pain, No Gain: A Critical Review of the Literature on Signalling Unobservable Product Quality. Journal of Marketing vol.64, 2000, p. 66-79.

KREPS, David. A course of microeconomics theory. New York: Harvester Wheatsheaf, 1994.

RASMUSEN, Eric. Games and Information An Introduction to Game Theory. Cambridge: Blackwell, 1992.

SPENCE, Michal. Market Signalling: Informational Transfer in Hiring and Related Screening Processes. London, England: Harvard University Press. 1974.

STADLER, Inés Macho e CASTILHO, David Pérez.. An Introduction to the Economic of Information. New York: Oxford University Press, 1997.

STIGLITZ, Joseph E.. The Contributions of the Economics of Information to Twentieth Century Economics. Quaterly Journal of Economics v. 463, 2000, p. 1441-79.

Por Alexsandro Rebello Bonatto em 09 de dezembro de 2008.
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Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br