Seleção Adversa no Mercado de Crédito

No mercado de crédito assumimos que, no início do relacionamento, os devedores não são iguais e ainda detém mais informação que os credores. De fato os diferentes tipos de devedores têm diferentes probabilidades de pagar seus empréstimos.

Segundo Mishkin (2000) o problema de seleção adversa acontece antes da transação ocorrer: tomadores com risco de crédito elevados são os que mais ativamente buscam por empréstimos. Portanto, as partes contratantes que mais provavelmente produzirão um resultado indesejável são também as que mais provavelmente se sentiram dispostas a participar da transação. Na medida em que a seleção adversa aumenta a probabilidade de um empréstimo ser concedido a um mau devedor, as instituições podem decidir não conceder empréstimo algum, ou conceder empréstimos a juros mais altos, mesmo havendo bons riscos de crédito no mercado.

Conforme Bebczuk (2000) a seleção adversa no mercado de crédito ocorre quando o credor não é capaz de distinguir entre projetos com diferentes níveis de risco no momento de formatar o contrato de empréstimo. Depois de assinado o contrato, o credor prefere projetos menos arriscados, enquanto o devedor prefere o contrário. Neste contexto os empresários detentores de projetos arriscados acham conveniente ocultar a verdadeira natureza do projeto, explorando a desinformação relativa do credor.

Para Cosci (1993) uma importante diferença entre os devedores são os seus diferentes graus de otimismo e pessimismo. Cosci considera que devedores otimistas irão superestimar sua própria probabilidade de sucesso, o que os fará aceitarem taxas de juros mais altas do que as aceitadas pelos do tipo pessimista. Quando a taxa de juros aumenta é provável que apenas devedores otimistas aceitem permanecer no mercado o que em última instância pode significar aumento do risco para os bancos, pois ficarão no mercado somente os indivíduos com propostas de elevado risco de crédito.

Clemenz (1986) argumenta que os tomadores podem diferenciar no que diz respeito às suas habilidades. Um aumento na taxa de juros pode afastar os tomadores com altas habilidades de seus projetos, por exemplo, ao invés de abrir sua própria empresa eles podem aceitar um emprego em uma empresa já formalmente constituída. Sendo neutro ao risco, o devedor prefere aceitar um empréstimo se, e somente se, o seu retorno esperado será maior que a taxa cobrada. Em função dos aumentos na taxa pode ser mais seguro aceitar um salário previamente combinado do que se arriscar com um projeto próprio.

No modelo de Jaffe e Russel (1976) dois tipos de devedores são apresentados: os honestos e os desonestos. Podemos definir honestos como aqueles que aceitam somente baixas taxas de juros porque eles esperam poder quitar seus empréstimos no prazo combinado. O tipo contrário aceita pagar altas taxas de juros porque sabem que sua probabilidade de pagamento é muito baixa. Sendo assim simplesmente não se importam com o custo do empréstimo.

Stiglitz e Weiss (1981), utilizando os conceitos propostos por Jaffe e Russel, demonstraram em seu modelo que a qualidade dos empréstimos financiando pelos bancos pode depender da taxa de juros praticada. Especificamente, a probabilidade média de pagamento é assumida para ser a função de decréscimo da taxa de juros dos empréstimos, a taxa de juros que um banco cobra pode afetar a probabilidade de pagamento de um conjunto de empréstimos em função do efeito da seleção adversa (por exemplo, afetando os candidatos ao empréstimo) ou em função do efeito do incentivo adverso (afetando as ações do devedores).

Em se considerando os casos mencionados acima, podemos argumentar que no primeiro caso um acréscimo na taxa de juros pode desencorajar indivíduos honestos a tomarem empréstimos, permanecendo no mercado apenas devedores desonestos que não estão preocupados em pagar por seus empréstimos. 

Da mesma forma, um aumento na taxas de juros pode produzir um efeito de incentivo adverso induzindo empreendedores a escolher os projetos mais arriscados e mais lucrativos (quando bem sucedidos). Neste caso o devedor é indiferente entre dois ou mais projetos com diferentes probabilidades de sucesso.

Para Clemenz (1986) todos os devedores são idênticos, o que difere é que a probabilidade de sucesso dos projetos dependendo do nível de esforço aplicado pelo devedor que de fato não é diretamente observável pelo banco. Um aumento de esforço implica num aumento da probabilidade de sucesso do projeto. Clemenz argumenta que o esforço pode ser uma função inversa a taxa de juros: um aumento na taxa pode significar diminuição na expectativa marginal de retorno do devedor o que pode incentivá-lo a diminuir o esforço aplicado no projeto.

Concluindo, a taxa de juros cobrada pelo banco afeta a qualidade dos empréstimos, e em particular ela afeta os riscos envolvidos nas operações a medida que implica no tipo de devedor que ela atrairá.

Uma caracterização especial do problema de seleção adversa e sobre a forma como ele interfere no funcionamento do mercado de crédito pode ser entendida através do “problema dos limões” já abordado num artigo anterior.  Se considerarmos maus riscos de crédito como “limões” e bons riscos como “pêssegos” e se a taxa de juros média cobrada no mercado não leva em consideração o grau de risco de crédito de cada devedor, desta forma haverá um incentivo para riscos de crédito do tipo “pêssegos” saírem do mercado por acharem que os custos dos empréstimos são altos demais para o risco apresentado por eles.

Como observamos os efeitos de seleção adversa no mercado de crédito são reais e podem efetivamente afetar o desenvolvimento do mercado de crédito a medida, que os bancos não conhecem previamente o tipo de devedor que está aceitando as taxas de juros cobradas por seus empréstimos.

Considerando os postulados da seleção adversa como válidos chegamos a conclusão que os bancos não dispõem antecipadamente de informações sobre o comportamento ou sobre a qualidade dos devedores e muito menos acerca de seus projetos. Desta forma, o mercado de crédito fica caracterizado pelas dificuldades envolvidas durante o processo de alocação dos recursos disponíveis entre os projetos apresentados.

Fica claro que sob seleção adversa o trabalho dos bancos é fundamental para garantir que somente os melhores projetos sejam aprovados, caso contrário o risco de perda dos recursos é muito grande o que pode implicar no mau funcionamento do mercado como um todo.

 

 

 

Bibliografia:

BEBCZUK, Ricardo N.. Información Asimétrica em Mercados Financeiros: Información y Aplicaciones. New York; Cambridge University Press, 2000.

 

CLEMENZ, G..Credit Markets with Asymmetric Information. New York: Verlag, 1986.

COSCI, Stefania. Credit Rationing and Asymmetric Information. Vermont: Dartmouth Publishing Company Limited, 1993.

 

JAFEE, Dwight e RUSSEL, Thomas. Imperfect Information, Uncertainty and Credit Rationing. Quaterly Journal of Economic v. 90, no 4, p. 651-66, nov. 1976.

 

MISHKIN, Frederic S. Moedas, Bancos e Mercados Financeiros. Rio de Janeiro: LTC, 2000.

 

STIGLITZ, Joseph E. e WEISS, Andrew. Credit Rating in Markets with Imperfect Information. American Economic Review, v. 71, p. 393-400, junho 1981.

 

Por Alexsandro Rebello Bonatto em 18 de dezembro de 2008.

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Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br