Repensando Métodos Capitalistas – Commodities Agrícolas

As commodities agrícolas estiveram por muito tempo associadas a uma cultura mais atrasada em termos capitalistas. Toda a questão rural ficou colocada de lado no momento em que o capitalismo avançou nos centros urbanos, trazendo à tona leis de mercado, variações de preços, comércios variados.

No momento de expansão da economia brasileira, as commodities agrícolas, notadamente o café, tiveram grande participação, podendo ser consideradas como as grandes responsáveis pelo desenvolvimento econômico brasileiro. Mas com o avanço do capitalismo, a urbanização dos grandes centros, o desenvolvimento da indústria no cenário brasileiro, as commodities foram perdendo importância – vale lembrar que a agricultura como um todo foi quem promoveu nosso desenvolvimento industrial, seja em momentos de êxito em suas exportações, seja em momentos em esta estava condenada.

No entanto, aos poucos a agricultura foi deixada de lado, sendo o foco econômico alternado para o então parque industrial que aqui se formava.

Passados muitos anos, nossa economia finalmente voltou novamente seus olhos para a agricultura. Agricultura essa tão rica e diversificada que chega a causar inveja em países com alto grau de desenvolvimento. E os responsáveis por toda essa nossa riqueza agrícola são as condições geográficas e conseqüentemente climáticas.

Mas, em um país em que os olhos estão voltados para o lucro, promovido pelo sistema capitalista, e para a competitividade, promovida pela globalização, o grande foco são as indústrias, o comércio urbano e o acúmulo de capital que estes promovem.

Observo claramente durante anos de história com que facilidade se descarta a riqueza agrícola brasileira para voltar todas as forças à indústria, ao novo, ao urbano. Mas de que forma isso poderia ser sustentável? De que forma esse novo modo de pensamento econômico, se é que se pode chamar assim, garante nosso desempenho, nossa produtividade, nossa competitividade?

Depois de muito se esborrachar em políticas econômicas para tratar desacertos comerciais, depois de muito se endividar em troca de investimentos, finalmente voltou-se o olhar novamente para a nossa agricultura. Aquela mesma agricultura diversificada, rica, substanciosa que um dia nos gerou mão de obra, alimentos, consumidores para a indústria. Só que agora, parte dessa agricultura é industrializada, garantindo mais desenvolvimento econômico ao Brasil.

No entanto, o cenário econômico evoluiu, se aprimorou, e todo esse desenrolar gerou também na agricultura a necessidade da modernização; não só em termos de maquinário, de tecnologia, mas também em termos de comercialização, de valorização.

Agora, as commodities agrícolas, além da lei da oferta e da procura, também sofrem influência de fundos de investimentos. A oferta e a demanda sempre foram as bases de formação dos preços das commodities agrícolas na economia brasileira, juntamente com as variações climáticas. Mas, obedecendo ao atual movimento do mercado econômico, deixaram de ser os determinantes na formação dos preços das commodities agrícolas, dando espaço agora para as influências dos fundos de investimentos, os quais ditam as novas tendências.

O termo utilizado é “financeirização do mercado”. Agora, a bolsa de commodities agrícolas é que indica as melhores ações a serem tomadas e dentro desse novo contexto, os produtores também estão mudando sua forma de interagir com o mercado. Observa-se o aumento do interesse na antecipação de compras para o setor (como exemplo a compra de fertilizantes), devido justamente à valorização que esses insumos estão apresentando em um curto espaço de tempo. E isso, por sua vez, permite calcular o custo das safras com antecipação de mais de um semestre.

Ao que tudo indica, os produtores agrícolas deverão ter atuação direta no mercado futuro. A problemática incide na falta de tradição dos agricultores em trabalhar com derivativos. E aqui fica novamente explícita a diferença entre a economia agrícola e a industrial. O atraso inclusive em termos de negociação, de manobras, de atuação. A formação de preços mudou, e juntamente com ela, deverá mudar a dinâmica de negociação e preços da agricultura.

É esperar para ver.

Autor: Alessandra Montebello

Economista (PUC/SP), com Mestrado em Economia (PUC/SP) e Especialização em Economia Internacional pela Universidade de Toronto-CA. Professora de Economia, Macroeconomia, Microeconomia, Economia Brasileira e Gestão Empresarial. Experiência de mais de 10 anos em Gerenciamento de Projetos, Planejamento Estratégico e Análises de Viabilidade-Econômica.

  • Roberto Gemeo

    Concordo plenamente com suas colocações, professora. Não podemos negar a vocação agricola do Brasil. Por mais que sejam criados incentivos governamentais para o setor industrial, grande parte de nossa economia (se não a maior) continuará dependente da produção do campo.

  • Júlia Pezzi

    Nossa, muito bom o artigo, concordo com o seu ponto de vista. Agricultura e indústria diversas vezes se fundem, dependem uma da outra. Ao meu ver chegou o momento de trabalhar a modernização da agroindústria, incentivar essa prática que influi nos mais variados setores da economia e chega arepresentar 35 % do PIB se levarmos em conta insumos, transporte, maquinário, etc.