Reflexões sobre a Crise e Davos – Segunda parte

Reza a lenda que uma vez por ano Karl Marx recebe autorização para abandonar sua tumba no cemitério de Highgate, em Londres, onde ele desde 1883 descansa , para participar do Fórum Social. Neste ano seu destino natural seria Belém, no estado brasileiro do Pará.

Mas ao invés de sofrer com o calor dos trópicos parece que Marx resolveu dar as caras na suíça Davos para ver como seus usuais detratores (banqueiros, políticos de direita, conservadores em geral) estavam usando seu nome.

Mas chegando lá ele teve um choque: nunca antes na história Marx foi tão popular. Em função dos últimos três meses de crise financeira internacional, ser pró-capitalismo está tão na moda quanto confessar que “foi fiscal do Sarney” no tempo do Cruzado.

Uma pesquisa realizada pela Harris Poll, publicada pelo jornal britânico Financial Times, mostra que um grande número de pessoas no mundo acredita que a crise se deve ao capitalismo em si, e não apenas a seus excessos. Na Alemanha, 30% acreditam nisso. Na França, 17%. Na Espanha, 15%. Nos Estados Unidos, epicentro da crise, 8%. No Brasil, a morte do capitalismo também se transformou num dos temas preferidos nas rodas de intelectuais, nos bares da vida e nas areias de Ipanema.

De certa forma, é compreensível que o capitalismo esteja sendo dado como morto. O mundo enfrenta a pior crise econômica desde a Grande Depressão, nos anos 1930. Ninguém com menos de 80 anos viveu algo semelhante. A queda das Bolsas de Valores e as perdas nos mercados futuros já drenaram mais de US$ 50 trilhões da poupança global – no Brasil, a perda alcançou cerca de R$ 1 trilhão.

Segundo dados do Banco da Inglaterra, o total de recursos injetado no sistema financeiro em todo o mundo chega a US$ 7,3 trilhões, o equivalente a mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) americano e a quase seis vezes o PIB brasileiro. Só o Fed, o banco central americano, já entrou com US$ 2 trilhões, incluindo a garantia para os ativos tóxicos dos bancos em dificuldades.

De acordo com o megainvestidor George Soros, mais do que nacionalizar ou injetar recursos públicos nos bancos sem o recebimento de uma contrapartida em ações, a melhor opção é seguir um esquema semelhante ao que foi adotado pelo Proer, o programa brasileiro de saneamento do sistema bancário implementado nos anos 1990. A ideia, como no Proer, é separar os bancos com problemas em duas instituições: a boa, com os ativos de qualidade, os clientes e os créditos saudáveis, e a ruim, que herda o “banco velho” com os ativos tóxicos. É algo ruim para os acionistas, que veem seu patrimônio evaporar, e também para os contribuintes, já que o governo paga a conta. Mas resolve – e o governo iria pagar a conta mesmo, de um jeito ou de outro. A questão, segundo Soros, é que depois da recente injeção de recursos públicos nos bancos fica difícil seguir esse caminho. Isso significa que não há muitas opções à vista além da estatização e da doação pura e simples de dinheiro público.

E os reflexos da crise chegaram até o cidadão comum. O desemprego deverá crescer de forma dramática. Pelas projeções da Organização Mundial do Trabalho (OIT), cerca de 50 milhões de pessoas poderão perder seus empregos só neste ano. O comércio internacional também deverá encolher. De acordo com o Banco Mundial, as exportações mundiais terão uma queda de 2,1%, o pior desempenho desde 1982. É um quadro sombrio.

Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia mundial deverá crescer apenas 0,5% em 2009, o pior resultado desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O crescimento do Brasil poderá ficar em 1,8% em 2009, segundo o FMI, menos da metade da taxa de 2008. Muitos economistas acreditam que o resultado da economia global poderá ser ainda pior – uma queda de 0,5% a 1%. Estima-se que, entre 2010 e 2012, a média de crescimento global deverá ficar em apenas 2,5% ao ano.

Sem dúvida são dados preocupantes. Estima-se que desde o início da crise o rombo seja de cerca de US$ 10 trilhões gerado pelos embustes armados à custa dos investidores. Contudo, se estamos na era dos trilhões e se tanta riquieza foi destriuída é porque um dia ela foi criada. E foi criada com todas as falhas que ele possa ter.

Portanto, sabemos que Marx está novamente na parada de sucessos, contudo, como todo participanteo do Big Brother sabe, a fama é passageira.

Bibliografia:
Revista Época, edição 559 de 2 de fevereiro de 2009
Revista Veja, edição 2.098 de 4 de fevereiro de 2009

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br