Quando nem as seguradoras são “seguras”

O mercado de seguros é absolutamente fundamental no desenvolvimento de um país. Além de garantir propriedades, bens, rendas, a saúde e a vida das pessoas, tem papel vital na produção da poupança necessária para alavancar o crescimento econômico.

Esta é a definição de livro-texto e está correta.

Agora imagine a situação quando a maior companhia seguradora do mundo está envolvida até o pescoço em operações de crédito de liquidação duvidosa feitas por bancos com credibilidade mais duvidosa ainda.

Pois é.

Na semama passada o mundo tomou conhecimento do inacreditável prejuízo da AIG (American International Group) 61,7 bilhões de dólares, produzido apenas nos últimos três meses do ano passado. É a maior perda trimestral da história dos Estados Unidos. São US$ 670 milhões por dia.

Interessante foi a reação de Ben Bernanke, o presidente do Fed, que comparou a maior companhia de seguros do mundo, a um fundo de hedge que tem a missão de fazer apostas arriscadas. É uma contradição para uma seguradora que depende da segurança e solidez nos negócios.

A posição do presidente do banco central americano faz sentido. O governo já injetara US$ 150 bilhões em nome da saúde do sistema financeiro mundial e assumiu 80% do controle da AIG. Tudo para evitar uma avalanche de problemas na economia real, que poderia levar o cidadão americano ao desespero com o desmoronamento de suas aposentadorias. E, se isso não bastasse, precisou realizar mais um depósito de US$ 30 bilhões para acolchoar a empresa de liquidez.

Com atuação em 130 países, a AIG é a seguradora de mais de 10 mil instituições, incluindo operações que empregam 100 milhões de americanos. No mundo, tem 74 milhões de segurados que seriam diretamente prejudicados com uma eventual quebra da empresa.

O fato é que a AIG pintou e bordou durante o período que parecia de expansão permanente dos preços no mercado imobiliário. Como era considerada uma seguradora de primeira classe, a AIG tinha a nota mais alta das agências de classificação, um triplo A, o que significava que o risco de não conseguir honrar suas dívidas beirava zero. A AIG aproveitava seu status de solidez de caixa para abençoar com sua classificação AAA operações lastreadas em hipotecas com risco tipo “ZZZ”. Eram papéis podres, como se sabe hoje, mas a bênção da AIG fazia-os parecer mais seguros e confiáveis.

Para dar seu “aval” a esse tipo de papel, a seguradora cobrava e cobrava caro. Usando uma brecha na legislação, a AIG não fez sequer reserva financeira para o caso de ter de bancar os papéis ruins que ela avalizava. Quando os preços imobiliários começaram a cair e esses papéis passaram a derreter, a AIG não teve o caixa necessário para bancar todos os seus avais. A empresa só não veio abaixo porque o governo americano decidiu que ela se encontra na categoria “grande demais para quebrar”. Se ruir, leva junto bancos (sobretudo europeus) e fundos de pensão.

Nessa altura do campeonato refletir sobre como chegamos até aqui parece bizantino. A verdadeira questão é como vamos sair dessa.

Bibliografia:
Revista da Semana, edição 78 de 12 de março de 2009
Revista Isto É Dinheiro, edição 596 de 11 de março de 2009
Revista Veja, edição 2.103 de 11 de março de 2009

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br