O Plano Geithner ou como sumir com US$ 500 bilhões de ativos podres

Às vezes em momentos dramáticos como o que vivemos atualmente, a história acaba por colocar nas costas de um único homem decisões que podem acabar com crises ou agravá-las ainda mais.

Parece que na crise do subprime já temos o primeiro candidato a “carregar o peso do mundo nas costas”, é o Secretário do Tesouro Americano, Timothy Geitner, jovem profissional que dirigia até pouco tempo atrás o Federal Reserve (banco central dos Eua) em Nova York.

Geithner é o rosto do plano anunciado em 23 de março para resgatar os bancos, reativar a economia, acabar com o desemprego, enfim, salvar o dia.

Um início pouco promissor
Há semanas, especialistas criticavam o Governo do presidente americano, Barack Obama, ao dizer que tinha se distraído com outros planos em vez de atuar com contundência no epicentro da crise econômica, no caso, a má saúde do sistema bancário.

No dia 10 de fevereiro, as bolsas desabaram ao observar, decepcionadas, que Geithner, convocou a imprensa para falar do plano e concluiu seu discurso sem dar detalhes do mesmo.

O que são os “ativos podres” – o centro do problema
Atualmente, os bancos nos EUA têm suas contas “contaminadas” por ativos de má qualidade, fundamentalmente vinculados às hipotecas “subprime”, o que os impede de recorrer aos mercados de crédito e, portanto, contar com recursos suficientes para emprestar dinheiro às empresas e às famílias.

O plano de regate – mais um
Com o mercado de crédito quase paralisado, o Departamento do Tesouro dos EUA elaborou um plano que recupere os bancos sem nacionalizá-los, como pedem os legisladores republicanos.

O plano consiste em tirar dos balanços dos bancos todos estes ativos do mercado imobiliário que não têm liquidez e que estão “contaminando” suas contas. Estes ativos deterioraram a capacidade dos bancos de conceder crédito, prejudicando o consumo e o investimento, motivo pelo qual o saneamento de seus balanços é considerado essencial para estimular a atividade econômica.

A compra dos ativos será feita com dinheiro público e de investidores privados

De onde sairá o dinheiro
A Comissão Federal de Seguros de Depósitos Bancários (FDIC), que regula o sistema bancário, auxiliará os bancos que quiserem se desfazer de suas dívidas de risco, e dará uma garantia e uma ajuda para o financiamento aos investidores que se dispuserem a adquiri-las. Os empréstimos em questão serão depois vendidos por um sistema de leilões.

Para a compra e gestão a longo prazo dos títulos, o Tesouro vai se associar a gestores de fundos privados e concederá um financiamento adicional, que pode chegar a um trilhão de dólares.

Comprovando as declarações de Lawrence Summers, diretor do Conselho Econômico Nacional dos EUA, duas grandes gestoras de ativos norte-americanas, Pimco e BlackRock, mostraram interesse no plano. O endosso de ambas as instituições ao programa de resgate do sistema bancário norte-americano dissipa parte das dúvidas acerca da eficiência do plano, já que demonstra que há efetivamente uma demanda por parte dos investidores privados. O BlackRock pretende levantar capital de investidores como fundos de pensão para o novo plano do Tesouro, além de considerar a criação de fundos mútuos para que os investidores individuais também possam participar.

Para os títulos atrelados a ativos imobiliários, os investidores interessados poderão se beneficiar de um acesso facilitado ao crédito ao consumo através do Programa de Alívio para Ativos Problemáticos (Tarf, na sigla em inglês), recentemente lançado pelo Federal Reserve (Fed), para obter parte do financiamento necessário para realizar a compra.

Parceria público-privada
O próprio Timothy Geithner disse em entrevista coletiva que os investidores privados têm que estar dispostos a “assumir alguns riscos” se quiserem que a medida funcione.

O objetivo é conseguir retirar dos balanços bancários cerca de US$ 500 bilhões em ativos “podres”, mas o programa pode ser ampliado até US$ 1 trilhão caso funcione.

De início, o Governo dos EUA usará neste “Programa de Investimento Público-Privado” entre US$ 75 e US$ 100 bilhões procedentes do plano de resgate financeiro que a Administração do ex-presidente americano George W. Bush lançou em outubro passado, dotado de US$ 750 bilhões.

Idéia requentada
Curiosamente, a ideia inicial do plano de resgate anterior era justamente adquirir os ativos “podres”, mas o Governo Bush decidiu destinar a primeira metade dos fundos para o conjunto de acionistas dos bancos.

No entanto, esta medida não só não serviu para restaurar o fluxo do crédito, como também deu às entidades financeiras dinheiro novo para remunerar seus acionistas e seus altos executivos, o que enraiveceu a opinião pública americana e frustrou os legisladores.

Agora, o Governo Obama pôs todas suas esperanças na compra dos ativos “podres” dos balanços bancários, iniciativa que conta com certa complexidade e muitos riscos.

Riscos e incertezas
Uma das dificuldades principais é como avaliar estes ativos. Se o Governo põe um preço baixo, os bancos não os venderão; se ficarem valorizados, a opinião pública fará oposição ao plano.

Uma das principais incertezas em relação ao plano está ligada à capacidade de o Governo do EUA atrair os investidores privados, como fundos de investimento, fundos de pensões e companhias de seguros, a participarem da compra dos ativos “podres”.

O herói em apuros
Não é só o sistema financeiro americano que depende do triunfo ou do fracasso do plano, mas também o futuro do próprio Geithner, que já sofreu duras críticas por ter participado da elaboração do plano de resgate de Bush.

Até agora, vários senadores republicanos pediram sua demissão. No domingo passado (dia 15 de março), um deles, Richard C. Shelby, membro do comitê bancário do senado americano, previu que, “se as coisas continuarem neste rumo, (Geithner) não vai durar muito em seu posto”.

Barack Obama saiu em defesa de sua equipe econômica e garantiu ter “completa confiança” no secretário do Tesouro americano.

“Ninguém trabalha com tanta inteligência, disciplina e tão duramente como ele”, disse o presidente dos EUA na semana passada.

Agora é ter fé, segurar nas mãos de Obama e Geithner e rezar.

Bibliografia:
O Estado de São Paulo edição 42.161 de 24 de março de 2009
“EUA oferecem financiamento para compra de ativos podres” publicado no site do jornal O Globo em 23 de março de 2009
“Geithner: plano para comprar ativos podres” publicado no site UOL em 23 de março de 2009

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br