O Papel dos Bancos no Mercado de Crédito

Num mundo de concorrência e informação perfeitas não haveria razão para a existência de intermediários financeiros. Os indivíduos poderiam tomar suas poupanças e investi-las em projetos e em firmas com retornos que são ótimos dadas as preferências e os horizontes temporais dos indivíduos. Os mercados poderiam se especializar em comercializar contratos que trocariam fundos sujeitos a todas as contingências imagináveis. Tais mercados iriam prover uma diversificação eficiente dos riscos. Esta é a hipótese dos mercados eficientes, onde os preços refletem toda a informação disponível.
Para Becsi e Wang (1997) o ponto chave para explicar porque os intermediários existem é a introdução de imperfeições ou fricções no mercado. Isto significa relaxar os pressupostos de informação e competição perfeitas ou mercado sem fricção, e mostrar como os intermediários financeiros podem melhorar os resultados obtidos pelo mercado. Quando as condições iniciais são menos que perfeitas, as trocas econômicas são caras e se forem suficientemente caras podem nem ao mesmo ocorrer. Os intermediários financeiros, especialmente os bancos, tornam tais trocas possíveis, reduzindo ou minimizando o efeito das fricções no mercado, reduzindo os custos de transação.
Tanto os problemas de seleção adversa quanto os de risco moral têm importantes efeitos no mercado de crédito. A primeira implicação é fazer dos bancos o único Agente capaz de analisar os projetos disponíveis e decidir quem pode ou não receber os recursos. Segundo Boot (2000), a razão de ser dos bancos é exatamente mitigar os problemas de informação assimétrica. O que é interessante na abordagem colocada por Boot, é entender o banco não apenas como um intermediário comercial, e sim um produtor de informações que através do relacionamento com os devedores tem um papel fundamental para a eficiente alocação de recursos no mercado de crédito.
Conforme Cosci (1993) uma das principais conseqüências da informação assimétrica é que os problemas de seleção adversa e risco moral justificam a existência dos bancos, como intermediários financeiros. A presença de seleção adversa pode induzir que certas instituições se especializem em adquirir informação sobre o risco dos projetos que buscam recursos no mercado de crédito. Tal situação possibilita ao credor distinguir mais facilmente entre bons e maus riscos de crédito, reduzindo de certa forma o grau de assimetria de informação presente no mercado. Os bancos têm uma importante vantagem em adquirir informações porque eles gerenciam as contas correntes das firmas e, portanto, possuem informações que não estão indisponíveis para os outros Agentes do mercado. A presença de risco moral também induz que certas instituições se especializem na atividade de monitoramento. O banco tem uma grande vantagem em coletar informações sobre o resultado dos projetos de investimento financiados, já que ele tem condições de acompanhar o desenvolvimento das firmas através do relacionamento bancário.
Para Spence (1974), o banco ao emprestar, compra uma fonte de recursos no futuro com dinheiro hoje, enquanto o devedor compra dinheiro hoje com sua capacidade ou disposição de devolver o recurso no futuro. É como se o banco comprasse um bilhete de loteria, já que ele não pode observar diretamente a capacidade de indivíduo em devolver o recurso emprestado. A decisão de emprestar ou não o recurso se embasará na quantidade de informações reunida pelo banco sobre as reais condições de pagamento daquele devedor.
Considerando os problemas de assimetria de informação presentes nos mercados financeiros e a existência de custos associados ao contrato direto entre os Agentes superavitários e os deficitários, estes se constituem em importantes justificativas ao papel dos bancos como principais atores na atividade de intermediação financeira. Na verdade segundo Thakor (1996) a existência de informação assimétrica fornece a principal explicação para a existência de intermediários financeiros na economia. O acesso a informação é inerentemente ligado ao relacionamento bancário, conferindo inúmeras vantagens aos bancos para efetuarem operações de crédito.
De uma maneira geral, os intermediários econômicos podem ser considerados Agentes que compram bens ou serviços para a revenda ou simplesmente ajudam compradores e vendedores (ou indivíduos superavitários e deficitários no caso da intermediação financeira) a encontrarem-se e realizarem transações. Se, entretanto, consideramos a hipótese acerca da existência de assimetria de informação nas transações, podemos encontrar o que se pode denominar de um microfundamento para a existência do processo de intermediação nos mercados.
Em boa parte das transações econômicas, os indivíduos envolvidos possuem informação assimétrica. Numa transação de compra e venda de um determinado bem, por exemplo, os vendedores não conhecem as características dos clientes potenciais; e estes, em muitas situações, não conhecem com certeza as características do produto a ser adquirido; um intermediário pode ajudar a resolver esses problemas coletando, processando e ofertando informações, reduzindo o custo agregado da transação como um todo. Trata-se enfim, de uma atividade que pode ser vista como uma forma de capturar ganhos com as transações considerando a existência de informação assimétrica entre os indivíduos.
Spence (1974) propõe uma discussão sobre o papel das agências de emprego no mercado de trabalho, que tem a função de selecionar os melhores candidatos para as empresas demandantes de empregados. Poderíamos adaptar o modelo proposto por Spence para o mercado de crédito, onde o banco tem a função de selecionar os melhores projetos de investimento para receber os recursos disponíveis captados junto aos aplicadores (Agentes superavitários).
Na verdade cabe aos bancos organizar o mercado que é formado pelos empreendedores que dispõem de projetos, mas não de recursos para realizá-los e os poupadores que disponibilizam os recursos que serão emprestados. A atividade bancária se notabiliza por aproximar os Agentes na busca pela melhor alocação dos recursos possível.
Os bancos possuem a vantagem de serem a única instituição preparada para separar entre os bons e mais projetos que demandam os recursos, através de sua capacidade de proceder a análise de crédito.
Em mercados caracterizados pela assimetria de informação torna-se indispensável a seleção entre projetos de maior e menor risco a fim de que possíveis perdas sejam evitadas, ou seja, um credor (bancos) com maior capacidade de reunir informações pode mais facilmente distinguir entre alto e baixo risco, aumentando assim sua utilidade esperada.
Na medida em que os bancos são capazes de identificar bons projetos, seus ganhos também crescem, implicando em mais investimento em produção de informação, que por sua vez implica em aumento da eficiência no processo de seleção entre os projetos.

Bibliografia:
BECSI, Zsolt e WANG, Piny. Financial Development and Growth. Federal Reserve Bank Atlanta Economic Review vol. 82 (4), 1997, p. 46-62.

BOOT, Arnoud W.A… Relationship Banking: What Do We Know? Journal of Financial Intermediation. vol. 9, p. 7-25, 2000.

COSCI, Stefania. Credit Rationing and Asymmetric Information. Vermont: Dartmouth Publishing Company Limited, 1993.

SPENCE, Michael. Market Signalling: Informational Transfer in Hiring and Related Screening Processes. London, England: Harvard University Press. 1974.

THAKOR, A.. Capital Requirement, Monetary Policy and Agregate Bank Lending: Theory and Empirical Evidence. Journal of Finance, v. 51, p. 279-324.1996.

Por Alexsandro Rebello Bonatto em 12 de dezembro de 2008.
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Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br

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