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O mercado de trabalho da engenharia

Autor: Guilherme Silva

Publicado em maio 4th, 2008 · 12 Comentários - 17.355 visualizações

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Minhas considerações sobre isso serão extensas… Mas peço que quem quiser me xingar pelo menos tenha a dignidade de ler o texto inteiro antes de fazê-lo. Não vale pular para o fim. E que argumente com idéias sólidas, pois sempre posso mudar de opinião. Se eu encontrar inconsistências no meu pensamento, volto atrás sem problemas nenhum, em público.

Começando,

Eu pensava como quase todos que escreveram nesta discussão até bem pouco atrás. Sou engenheiro de formação, e também me revoltava com os salários praticados no mercado. Confesso que existe uma lógica por trás da engenharia que parece perversa e pronta para “sacanear” os bons e velhos amigos engenheiros. Mas…

Vivemos todos em uma sociedade capitalista. E isto é muito bom. Isto significa que você pode decidir o que fazer com os recursos que você possui (não só financeiro, veja bem. Recursos são tempo, dinheiro, dedicação, contatos, amizades, etc,). Você pode escolher gastar o seu dinheiro em alguma coisa que te dê prazer, como comprar um carro, uma pilha de engradados de cerveja, um presente para a namorada ou a construção de uma escola para pessoas carentes. Você é livre para fazer o que quiser. Mas também pode investi-lo para transformar em mais recursos (ou outra forma de recurso – você pode contratar uma empregada doméstica para ganhar tempo, por exemplo).

Uma das atividades que você pode fazer com seu dinheiro é contratar um engenheiro. Talvez diretamente, normalmente um engenheiro civil, comprando um projeto deste engenheiro. Ou você pode comprar uma máquina de produzir qualquer coisa, esperando vender e ter um retorno no futuro maior que o investimento feito hoje. Claro que, na prática, você formará uma empresa para abrigar esta máquina, e cuidará para que a empresa cresça e tenha lucros, sempre maiores que seu investimento inicial, pois senão seria melhor ter comprado um barco (ou um navio) e saído mundo afora.

E como fazemos para saber se vale a pena pagarmos para ter um engenheiro trabalhando para nós? É relativamente fácil… ele tem que gerar, para minha empresa, um retorno no mínimo igual ao seu custo mais um lucro.

Se este lucro for 1 centavo, ou seja maior que zero, ele provavelmente nunca será demitido (Em um outro momento eu vou escrever um artigo para provar que isto é verdadeiro. Mas ainda tenho muita coisa para escrever e não quero fazer um livro hoje. Aos curiosos, isto está em qualquer livro de introdução à microeconomia). A parte difícil desta equação é calcular o seu retorno e seu custo.

O custo é mais simples de calcular que o ganho, mas mesmo assim esconde truques importantes, frequentemente ignorados. Os custos fáceis de calcular são o salário mais encargos sociais obrigatórios. Difíceis são os outros. Qual o custo de overhead que eu tenho ao contratar mais uma pessoa? E o cafezinho que ele toma, quem paga? E o tempo que o gerente dele está ensinando ele a fazer o seu trabalho, quem e como contabiliza? E o tempo que o indíviduo passa distraindo as outras pessoas do recinto, como é contado?

Como os gerentes de projetos, acostumados a tratar riscos de projetos, sabem, para tudo existe um risco associado e um custo deste risco. Tem-se que levar em conta a probabilidade deste indíviduo entrar na justiça contra você, a probabilidade dele “se encostar” e não trabalhar, o próprio risco de que você não perceba, o risco dele fazer uma falcatrua e sujar o nome da empresa, etc, etc, etc.

Bom, se os custos são difícies de medir, os ganhos então… Como se mede o retorno de um engenheiro? Qual a imprecisão associada a esta medição? Como precificamos as idéias e avaliamos o valor agregado gerado? Como avaliamos o “bom humor” que o amigo empresta à empresa enquanto está presente?E isto não tem valor? E como medimos o valor que o engenheiro em questão agrega às outras pessoas a manter um bom clima na empresa?

Bom, a esta altura eu já imagino que as palavras custos e lucro não são suficientes para descrever esta situação. Por se altamente pecuniário, estas palavras dão origem à uma formulação muito mais apropriada: Criação de Valor.

Existe um teorema da microeconomia, com minha adaptação, que diz “sempre que uma pessoa agregar mais valor que destruir, ela pode barganhar junto ao seu contratante um aumento da remuneração (aumentar a sua destruição de valor da empresa) de modo a quase zerar o valor agregado.”. Volto ao artigo que me referi logo acima, que ainda hei de escrever.

OK,OK,OK. Agora todos me acham maniático que pensa que todas as empresas saem por aí calculando riscos, custos e valores agregados a todo instante com planilhas complexas para se saber se vale ou não a pena contratar alguém. Bom, não é assim que funciona.

A coisa é mais simples pois todos nós fazemos este tipo de comparação a todo instante. Estamos tão acostumados que nem percebemos. As decisões que tomamos são sempre baseadas nisto. Vale a pena ler este e-mail até o fim? Tenha certeza que se o valor esperado agregado pelo e-mail for maior que o seu custo (cansaço, tédio, não brincar com o seu filho) você lerá até o fim. Senão, abandonará.

Com isso, eu quero dizer que as pessoas contratam outras pessoas para que tomem conta de suas empresas baseado na capacidade de julgamento que estas pessoas tem ou aparentam ter. E se seu julgamente for realmente apurado, a empresa dará lucro. Se a empresa tomar decisões erradas, não levando em conta o tudo o que eu disse acima, o mais provável será um lucro aquém do esperado ou prejuízo. Claro que isso é uma arte, e por isso que os executivos ganham muito bem. Pois eles geram este valor para a empresa. Se a empresa não der lucro, é fechada. Darwin também atua no mundo empresarial.

Agora, vamos construir o telhado para que vocês joguem pedras:

1) Considerando o exposto acima, se você está reclamando de baixa remuneração, isso pode ser apenas devido a uma das três coisas:

a) Não agregar valor à empresa; Pelo menos não agrega o valor que você pensa agregar.

Isso não é pessoal. Uma pessoa, ou uma classe inteira de profissionais pode deixar de agregar valor. Datilógrafos, por mais estudo que tenham, perderam valor de mercado pois não agregam valor aos dias atuais. O ponto é: A engenharia continua agregando o que sempre agregou ou virou commoditie?

Como engenheiro, e olhando a zona que está o mercado, tendo a pensar que realmente o valor agregado pela engenharia é menor do que esperávamos quando fizemos o curso. Se profissionais sem qualificação, bem ou mal, estão “dando conta do recado”, ou “se os fiscais não cobram” é porque não está afetando o resultado geral das obras. Ou os custos desta solução são aceitáveis, perto dos custos gerados pelo hiper-planejamento ou da “mentalidade antiga”.

b) Não saber demonstrar aos outros o valor que você agrega;

Adianta você ter certeza que agrega valor à empresa? Se seus superiores ou colegas não perceberem isso, você terá seu crescimento limitado ao valor percebido por eles. E não duvide do valor percebido pelo mercado. Normalmente o valor equivale à média das pessoas que contratam o serviço, espelhando uma média, com todos os equívocos e generalizações que as médias costumam provocar. Mas mesmo assim, ainda é um termômetro poderossísimo para se medir como a profissão como um todo agrega em valor ao mundo que vivemos, em comparação ao outro lado da curva, o lado da oferta.

Não sei como a mágica foi criada, mas o mercado se alinha. Se tem alguém conseguindo lucro fácil, muitas pessoas correm atrás e o valor do bem ou serviço cai até não valer mais a pena entrar no mercado (vide o custo de “webmasters” no início do boom da internet e agora).

Ah, e por favor, sempre pense duas vezes antes de criticar os “politiqueiros” e “marketeiros”. Eles são como garotos-propaganda da própria profissão, e quando convencem aos superiores que agregam valor, por tabela acabam valorizando a profissão como um todo. Um produto não se vende sem propaganda, e o mesmo se aplica a serviços. Ingenuidade seria pensar que “engenharia” não precisa de propaganda.

c) Não saber negociar os seus custos (remuneração);

Mais um bom capítulo para um livro futuro. O fato é que a outra parte da negociação sempre te dará aumentos enquanto ela perceber que te manter na organização é benéfico para a própria empresa. Mesmo negociando frequentemente aumentos (um dos aspectos que a organização pode achar demeritosa, portanto use com cuidado).

Existe, como colocado nos e-mails acima, a chance de negociata em grupo,via sindicato ou lei que não permita um salário abaixo do mínimo. Isto, infelizmente, é mais uma das ilusões que não são pensadas a fundo.

Os sindicatos são, economicamente falando, cartéis de profissionais que restrigem a oferta de seus serviços para barganhar lucros. Só que, estudando teoria dos jogos, é fácil perceber que os cartéis tem uma característica: Só podem ser mantidos a força. No Brasil, esta força é tão forte que está na constituição, você tem que contribuir para alguma “caixinha” arrecadatória. E vai falar para um sindicalista qualquer que esta contribuição deveria ser facultativa, que ele coloca um carro de som na frente da tua porta por quanto tempo o TEU DINHEIRO patrocinar o carro. Ou organiza uma passeata com todos os não-instruídos para protestar.

A coerção necessária para manter qualquer cartel não é o principal problema. O problema está nos efeitos negativos que os cartéis provocam na sociedade. Como o fato de alguém se revoltar, genuinamente, em “porque uma empresa um salário desses”, quando de fato, a pessoa que ocupar aquela vaga só irá gerar o valor proposto para a vaga. Se a coerção for eficaz e a empresa proibida de oferecer tal emprego, duas consequências surgirão:

1) Um profissional, pouco qualificado, provavelmente por falta de experiência ficará mais tempo sem emprego e,

2) Uma empresa, que necessitava aquele profissional não colocará ninguém para desempenhar o papel, pois não “vale a pena” empregar uma pessoa para gerar tãpo pouco valor. Ou aumentará a carga dos que já fazem algo parecido, mas sem oferecer a contrapartida adequada.

Provavelmente, no longo prazo, as vagas não-criadas serão contadas como “custo-Brasil” em alguma planilha de algum executivo, e a planta toda será deslocada para Índia ou China. A economia brasileira perderá como um todo, talvez levando milhares de empregos dos “sindicalizados”.

Minha luta será sempre para manter os custos de manutenção de um profissional o mais baixo possível, seja através da diminuição dos impostos incidentes nestas transações (imposto de renda, sindicato, INSS, FGTS, e demais blá-blá-blás que de vez em quando tentam vender como “direitos”), e pela qualificação do pessoal, que realmente aumenta o valor agregado ao trabalho do profissional.

Grande abraço a todos e muito obrigado pela paciência,

Guilherme Silva.

Categoria: Economia

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12 responses so far ↓

  • 1 Anônimo // mai 4, 2008 at 5:47 pm

    Guilherme, pela senoide da experiencia profissional, contesto, que nao abordou os aspectos ligados a emoções humanas, que prevalecem sobre os argumentos.
    Atualmente apesar de ser correto seus itens a,b e c. Em contrapartida existe o receio, pelo excesso.
    Para item B e C, se empresario temer o funcionario,candidato, pelo dominio ou valor agregado, que representa com o \”elo de ligação\” a empresa, possivelnente o mesmo sera rejeitado ou demitido, por motivo de representar uma ameaça em adquirir a experiencia captada pela empresa em longos anos ou favorecer o progresso do funcionario e posterior concorrente no ramo.
    Enfim, faltou o proximo item, o surgimento dos empreededores.

  • 2 Anônimo // jul 30, 2008 at 10:29 am

    boa argumentação, mas faltou alguns conectivos.
    E a engenharia?

  • 3 Guilherme // ago 6, 2008 at 9:27 pm

    Oi,

    É verdade que falta conectivos com o mercado de engenharia. O texto tem esse nome porque ele nasceu de uma longa discussão na e-plan, como resposta a algumas indagações específicas – principalmente pessoas culpandos outras pessoas ou outros aspectos menores quando elas não conseguiam uma posição no mercado.
    Agora, o mercado de engenharia tem alguns aspectos que estão intrínsecos no texto. É um mercado aquecido. É um mercado tradicional, com algumas características especiais. Claro que o que está escrito serve para muitos mercados. Mas eu escrevi pensando especialmente em engenharia… e não sei se pode ser generalizado para todas as situações.

    Abraço,
    Guilherme.

  • 4 stefany // mar 31, 2009 at 1:31 pm

    oi eu tenho 15 anos e o meu sonho é ser futuramente uma engenheira civil.
    vc poderia me dizer qual realmente é o trabalho de um engenheiro civil?
    obrigado.

  • 5 bruna // ago 22, 2009 at 9:35 pm

    oi,eu tenho 14 anos e pretendo ser engenheira civil vc pode me falar o que ele realmente faz?

  • 6 jayro // set 22, 2009 at 11:30 am

    oi tenho 14 anos queria saber como e um trabalho q mexe tcnologia mas tambem dismonta e monta coisas mas ou menos asim

  • 7 julio // fev 17, 2010 at 9:12 am

    Certo.Mas qual a situaçao dos trabalhadores da India e da China por exemplo ? Ganham bem? Sempre ouvi dizer que os trabalhadores dos Eua e Europa ganham 5 a 10 vezes mais do que os nosssos para desempenharem a mesma funçao .No
    Primeiro Mundo as relaçoes trabalhistas sao mais
    flexiveis pq a economia é mais dinamica e nao o contrario

  • 8 julio // fev 17, 2010 at 9:18 am

    Capitalismo é mesmo correr riscos e nao exigir garantias .Mas o fato é que quando uma grande empresa quebra , ela vai correndo pedir ajuda ao
    Estado ( todos , ligaodos ou nao a ela ) .Outro fato é que as grandes empresas tb possuem seus sindicatos , associaçoes , federaçoes , etc.

  • 9 julio // fev 17, 2010 at 2:51 pm

    Capitalismo é mesmo correr riscos e nao exigir garantias .Mas o fato é que quando uma grande empresa quebra , ela vai correndo pedir ajuda ao
    Estado ( todos nós , ligados ou nao a ela ) .Outro fato é que as grandes empresas tb possuem seus sindicatos , associaçoes , federaçoes , etc.

  • 10 Guilherme // fev 18, 2010 at 4:04 pm

    Julio,

    Escrevi minha resposta em http://www.gerenciamentoeconomico.com.br/economia/provocacoes-economicas/. Qualquer coisa, pode comentar.

  • 11 Provocações econômicas | Gerenciamento Econômico.com.br // fev 18, 2010 at 4:08 pm

    [...] O mercado de trabalho da engenharia (5,00) [...]

  • 12 Provocações econômicas « Portal Saber // out 13, 2010 at 12:15 am

    [...] — Nenhum Comentário Eu gosto de provocações. Fui provocado pelo Julio em meu post http://www.gerenciamentoeconomico.com.br/economia/o-mercado-de-trabalho-da-engenharia/ e acredito que deva responder de forma mais genérica e ampla que apenas um comentário naquele [...]

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