O ladrão de carne (parte I)

Nesta semana, correu o Brasil a história de um senhor, desempregado, que fora preso ao roubar carne para alimentar seus filhos. Os policiais que o detiveram, dotados de compaixão pelo humilhado homem, adquiriram cestas básicas e, em questão de dias, pela repercussão do caso na mídia, o senhor já podia ser chamado novamente de eletricista pelas ações de um empresário tocado pela história.

vítimas da pobreza

 

Esta história possui todos os elementos para que torne alvo de uma explosão midiática. Há um desempregado,  sem recursos, que se apresenta vitimado pela economia. Há os opressores do Estado que levaram o pobre homem preso. Há a reviravolta da história, em que os próprios opressores criam compaixão pelo oprimido e resolvem ajudar-lhe. E há o final feliz que nos faz tão bem.

Por isso, analistas de todas as sortes lançam-se a tirar conclusões das mais variadas. Os que acreditam no Estado como possível solução de problemas de desigualdade, lançam-se a propor aumento de programas sociais. A argumentação é aparentemente sólida: Se este pai de família tivesse acesso a uma renda suplementar, se ele tivesse um rendimento que lhe garantisse o sustento,  ele não seria obrigado a fazer o que fez. E sempre há quem pudesse ter pago, alguém de quem pudéssemos tirar os míseros reais necessários para alimentar os filhos do eletricista. Há sempre um rico lucrando muito, e que pode repartir estes ganhos com pessoas necessitadas, sustentam de modo geral. E se não o fazem espontaneamente, por doações, forçaremos a que isso seja feito por impostos sobre a riqueza.

Ao mesmo tempo, alguns defensores do livre mercado atacam com veemência  o personagem principal. Ele não poderia ter roubado, quem rouba é ladrão, e ladrão deve ir preso são algumas das frases que li durante a semana. Existe até quem pense que o desfecho – que o desempregado tenha conseguido um emprego – seja injusta pelo fato dele ter lucrado da mídia gerada pelo crime que cometeu. A lógica é impecável: um roubo é um ataque à propriedade privada, um direito fundamental que deve ser resguardado para que a economia funcione. Afinal, só a economia forte pode gerar renda suficiente para financiar o desenvolvimento, a alimentação, a saúde de todos. Se deixamos de defender o direito à propriedade privada, rapidamente caímos em uma situação de instabilidade cujo principal efeito seria um aumento no desemprego, desabastecimento e pobreza ainda maior. Argumentam que a questão dos seus atos mostrar a natureza de seu caráter, e que este tipo de ação só poderia ser tomada em um regime de exceção, talvez em um estado de guerra civil.

Eu tenho certeza absoluta que faria o mesmo em nome de meus filhos se confrontado com as únicas opções de roubar ou vê-los passar fome. Eu não hesitaria nem por um segundo. Por mais que tenha convicção que roubar é errado, o direito à vida, e principalmente, à vida de meus filhos é mais forte que qualquer direito de outros. Eu defenderia a vida deles à vida de outros sem a mínima dúvida, então quem dirá compará-las com o direito secundário de propriedade privada em nome de uma economia e sociedade estável.

É então o momento de não analisarmos a história apenas do ponto de vista macro, mas do ponto de vista psicológico também. A diferença entre a situação de impotência diante da absoluta crise financeira de uma família assemelha-se em muitos aspectos à uma situação de grave crise conjuntural ou guerra civil.  O que me importa se sou apenas eu ou todos que não conseguem alimentar seus filhos? Se eu não conseguir pôr comida em minha mesa, o desespero é real e imediato, e não uma situação hipotética agregada a ser analisada no Jornal Nacional.

 Perde o liberal que não consegue ter a empatia pelo desespero alheio, perde a razão quando falha em perceber o problema real, aqui e agora.  Perdem todos quando falham em ver as consequências reais de curto, médio e longo prazo, psicológicas, sociais e econômicas das ações que propõem.

Na segunda parte do texto iremos iniciar a entender em mais detalhes essas consequências e propor ações que possam funcionar tanto na teoria quanto na prática. Enquanto o texto não está pronto, deixe seu comentário.

Autor: Guilherme

Meu nome é Guilherme Silva, estou com 28 anos, tenho um filho que recentemente comemorou seu primeiro aniversário. Casado, morando em Porto Alegre, cursei engenharia mecânica, fiz MBA em gerenciamento de projetos e hoje faço pós-graduação em economia. Sou certificado PMP pelo PMI. Trabalho atualmente como consultor em gerenciamento de projetos pela empresa Conduta ( www.conduta-ti.com.br ), prestando serviços para o site Terra ( www.terra.com.br ). Contatos para qualquer finalidade, podem ser feitos através de meu e-mail guilherme@cerneprojetos.com.br. Outra maneira de entrar em contato comigo é através do site linkedin. Meu perfil está disponível através do link abaixo: http://www.linkedin.com/in/guilhermessilva