John Paulson: como lucrar com a crise do subprime

Imagine que você está andando pela rua e começa a ouvir uma gritaria. Alguém anuncia que achou um pote de ouro no fim do arco-íris. Claro que uma multidão se aglomera tentando pegar o seu quinhão.Mas você corre para o outro lado, já que em sua opinião isso é ouro de tolo.

A história acima é uma invenção mas serve para ilustrar o pensamento do homem que é considerado o novo gênio das finanças, ao lado de Warren Buffet e George Soros, o gestor de fundos de hedge John Paulson.Aos 53 anos, ele fez história ao ganhar pessoalmente US$ 3,7 bilhões na crise do subprime.

Gestores de fundos de hedge como Paulson usualmente são apontados como os vilões do sistema financeiro. Não faltaram previsões apocalípticas sobre as crises que inevitavelmente provocariam. A má fama é bom que se diga, não era de todo infundada. Por definição, os fundos de hedge – aqueles que investem em juros, moedas, ações, opções e contratos futuros – andam no fio da navalha, com grande apetite para o risco e sempre em busca dos maiores retornos possíveis.

Contudo, pelo menos na atual crise eles não têm culpa no cartório.

Dessa vez, enquanto milhões de americanos perdiam suas casas, bancos iam à falência, empresas demitiam e o governo dos EUA procurava uma saída para a crise dos empréstimos imobiliários de alto risco (o chamado subprime), Paulson contabilizava os lucros astronômicos de seus fundos de hedge. Um deles, o Credit Fund, ganhou 590% em 2007. O outro, 353%. Suas apostas no pior cenário possível renderam US$ 15 bilhões e ele embolsou 25% desse lucro.

Sua empresa de fundos alcançou o patrimônio de US$ 36 bilhões sob gestão, um dos maiores do setor. Nada mal para quem deixou um emprego de banqueiro de investimentos no Bear Stearns, com US$ 2 milhões no bolso, e montou seu próprio fundo, 15 anos atrás. De junho de 1994 a setembro de 2008, US$ 100 investidos na carteira de Paulson viraram US$ 946, duas vezes e meia o desempenho do índice de hedge funds e quase três vezes a valorização do índice S&P 500.

A estratégia de Paulson foi apostar na falência do segmento de subprime. Ele começou a fazer isso em 2005, enquanto essa fatia do mercado americano ainda era lucrativa. Seu plano era aplicar em opções de venda no mercado futuro de ativos ligados a imóveis para se proteger da desvalorização de papéis atrelados a esse setor. Até o começo de 2007, essas operações davam prejuízo. O que permitiu a Paulson insistir por tanto tempo numa estratégia que não era lucrativa foi o fato de as perdas serem relativamente pequenas. “Como poucos gestores apostavam contra o segmento de subprime, quase não havia demanda por esse tipo de proteção no mercado futuro e, por isso, seu preço era baixo”, diz Ken Heinz, presidente da consultoria Hedge Fund Research, uma das principais empresas de pesquisa sobre fundos de hedge, com sede em Chicago. “Olhando friamente pela ótica do risco versus retorno, ele fez o certo.” Ou seja, se a crise do subprime não viesse, Paulson perderia dinheiro, mas não seria uma tragédia; alternativamente, ganharia o suficiente para sustentar algumas gerações da família.

Antes do estouro da bolha, em outubro de 2008, ele focava suas estratégias nas instituições mais alavancadas nesse mercado de alto risco, como Lehman Brothers, Bear Stearns, Wachovia e Washington Mutual. Todos tombaram. A ação do Bear Stearns, por exemplo, despencou de US$ 80 para US$ 2. Além de vender a descoberto, Paulson também fez operações com derivativos de crédito. Em uma delas, sempre apostando nos calotes, investiu US$ 22 milhões em credit default swaps e recebeu de volta pouco mais de US$ 1 bilhão. De fala mansa, o gênio ganha dinheiro desde a infância. Incentivado pelo avô, o banqueiro Arthur Boklan, ele comprava doces no supermercado para revender aos colegas do Queens. Hoje, o bilionário prevê que dias piores virão. “Ainda teremos um longo caminho pela frente até atingirmos o fundo do poço”, afirmou este mês à revista Portfolio, em rara entrevista.

A opção de Paulson de ir contra o pensamento da manada me lembra outra história, um pouco mais antiga.

Tony Dye era chefe de investimentos da Philips & Drew, que gerencia investimentos de porte, como fundos de pensão. Tony Dye concluiu em 1996 que, no nível de 4.000 pontos, o FTSE 100 (índices que reflete o desemplenho das cem maiores empresas listadas na Bolsa de Londres) estava sobrevalorizado, sendo assim, ele alocou parte dos recursos de seus clientes em contas de poupança. Ele enxugou cerca de sete bilhões de libras do mercado, e sua estratégia foi observada e analisada por competidores, clientes e pela imprensa. O resultado não podia ser outro: ele foi ridicularizado e chamado de Dr. Catástrofe. Como o FTSE continuava a subir durante os anos 90, a estratégia de Dye começou a parecer mais questionável. Em 1999, a Philips & Drew perdeu mais clientes do que qualquer outro gestor de recursos. Dye insistia que o mercado estava sobrevalorizado, não se interessava por açoes de empresas de internet e de telecomunicações. O fim era inevitável. Sua aposentadoria prematura foi anunciada em março de 200 e a conclusão geral era a de que ele tinha sido forçado a sair.

Dye perdeu seu emprego mas estava certo. Antes que a Philips & Drew tivesse tempo de mudar sua estratégia, o mercado começou a apresentar acentuada queda. O preço das ações de empresas ponto.com, de telecomunicações e de tecnologia despencou. A Philips & Drew subiu para o topo do ranking de gestores de recursos, obtendo um retorno de 6,4% no segundo trimestre de 2000, o equivalente a um retorno anualizado de 28% num mercado em franco declínio. Será que alguém lembrou de Tony Dye? Eu acho que não.

É, nem todo mundo nasceu para ser um Buffet, um Soros ou um Paulson.

Bibliografia:
Harford, Tim. O economista clandestino/Tim Harford: tradução de Fernando Carneiro. Rio de Janeiro: Recors, 2007.
Revista Isto É Dinheiro, edição 593 de 18 de fevereiro de 2009
Revista Exame, edição 912 de 21 de fevereiro de 2008

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br