Indústria mundial pede socorro e ninguém ouve

Eu sei que você deve estar cansado de ouvir falar em crise, ainda mais em bancos em crise.

Então o propósito deste artigo é chamar a atenção para os números preocupantes da indústria ao redor do mundo. O fato do setor industrial estar em queda não é surpreendente, mas a profundidade e a velocidade é que são impressionantes e criam uma tendência que acentua a si mesma, semelhante às falências em cadeia que resultaram na Grande Depressão.

Na Europa, por exemplo, onde a indústria corresponde a quase 20% do Produto Interno Bruto (PIB), a produção caiu 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. No Brasil, a queda foi de 15%; em Taiwan, chegou a impressionantes 43%. Até na China, que virou a grande fábrica do mundo, o crescimento produtivo desacelerou, as exportações caíram 25% e milhões de trabalhadores industriais foram demitidos.

Nos Estados Unidos, até pouco tempo atrás um país relativamente próspero para o setor industrial, apesar da erosão constante dos empregos de trabalho braçal, a produção industrial caiu 11% em fevereiro em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com estatísticas publicadas pelo Federal Reserve.

O padrão detectado na indústria e no comércio lembra ameaçadoramente a maneira com que a crise financeira iniciada em 1929 cresceu até chegar à Grande Depressão: o aperto no mercado de crédito e o medo do consumidor reduziram a demanda por bens manufaturados em todos os países, um após o outro, criando uma espiral descendente que reduziu o comércio global.

O comércio está diminuindo num ritmo ainda maior do que a produção. As exportações da Alemanha estão 20% menores do que há um ano, as japonesas caíram 46% e, nos EUA, caíram a uma taxa anual de 23,6% no quarto trimestre de 2008.

Apesar de a atividade industrial corresponder a cerca de 14% do PIB americano, na economia mundial ela corresponde a 18%, e a 33% do PIB chinês, segundo o Banco Mundial.

Isso significa que China, Brasil, Índia e outros países emergentes que escaparam das piores consequências da crise de crédito vão sofrer cada vez mais, derrubando a demanda em economias mais avançadas mesmo quando os pacotes de estímulo começarem a dar resultado. Esse efeito de depressão funciona em ambos os sentidos.

Apesar da noção equivocada de que os EUA não produzem mais nada hoje em dia, a queda na demanda por artigos produzidos no país – como turbinas a jato, locomotivas, equipamento médico, produtos farmacêuticos e artigos de alta tecnologia – vai prejudicar as perspectivas de crescimento dos EUA.

Apesar de os problemas das indústrias automobilística e pesada terem recebido a maior parte da atenção, o sofrimento atinge também os fabricantes de produtos como artesanato, tecidos e joias.

O setor industrial da Índia, que corresponde a cerca de 16% do PIB do país, viu seu primeiro declínio na produção trimestral em mais de uma década.E apesar dos cortes nos impostos e de um pacote de estímulo de US$ 64 milhões anunciado em fevereiro, a indústria têxtil indiana pressiona o governo para obter mais ajuda.

Perturbações no setor industrial preocupam tanto por seu papel na contagem do PIB dos países quanto no potencial devastador de suas demissões. Muito tem se falado no mercado bancário, mas a indústria pode acabar revelando surpresas bastante desagradáveis no curto prazo.

Bibliografia:
O Estado de São Paulo, edição 42.158 de 21 de março de 2009, artigo “Economia mundial: queda da indústria lembra a depressão” de Nelson D. Schwartz do The New York Times

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br