G-20: uma nova esperança

O economista Hyman Minsky dizia que uma crise acabaria quando pelo menos uma das três condições abaixo fosse satisfeita:
– os preços caiam tanto que as pessoas sejam novamente tentadas a voltar a comprar;
– o mercado de ações seja interrompido através do estabelecimento de limites para as quedas de preço, fechamento de bolsas de valores ou, ainda, encerramento das transações;
– um fornecedor de recursos de última instância (o Banco Central) obtenha sucesso em convencer o mercado que haverá disponibilidade de dinheiro em volume suficiente para satisfazer a demanda.

Talvez a última das condições tenha sido atendida pelas resoluções tomadas pelo G-20 na semana passada.

As 20 maiores economias do mundo – representadas por 19 países desenvolvidos e emergentes e pela União Europeia – confirmaram um pacote de US$ 1,1 trilhão para irrigar a economia mundial. Os líderes do G-20 prometeram triplicar o capital do Fundo Monetário Internacional (FMI) de US$ 250 bilhões para US$ 750 bilhões, com o aporte imediato de US$ 250 bilhões pelos países-membros e mais US$ 250 bilhões em Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês), equivalente à emissão de uma moeda, para reforçar as reservas dos países necessitados.

Para chegar a US$ 1,1 trilhão, o FMI vai captar mais US$ 500 bilhões em Novos Arranjos para Empréstimos (NAB, na sigla em inglês) de países-membros e instituições. Outros US$ 100 bilhões deverão vir de captações no mercado, que ficarão disponíveis para os bancos multilaterais de desenvolvimento. Além disso, o FMI também poderá vender parte de seu ouro para emprestar US$ 6 bilhões a países pobres.

No comunicado final do encontro realizado em Londres, os líderes do G-20 comprometeram-se a tentar superar a crise global até o fim de 2010. Até lá, a soma de programas de estímulo, isenções fiscais, emissão de moedas e de títulos já anunciados e ainda previstos vai chegar a US$ 5 trilhões. Os chefes de Estado e de governo também concordaram em aprimorar a regulamentação do sistema financeiro, inclusive para fundos de hedge; obrigar os paraísos fiscais a dar informações; reformar as instituições multilaterais, dando poder de voto a países emergentes; evitar medidas protecionistas e retomar a Rodada Doha; e aumentar a ajuda aos países pobres.

Além da garantia de recursos para economias que enfrentarem dificuldades, o G-20 apresentou um pacote de medidas que pretende reforçar a segurança do sistema financeiro a fim de previnir futuras crises. São elas:

– mais regulação: todas as insituições financeiras, instrumentos e mercados “sistematicamente importantes”, devem ser regulados, incluindo os hedge funds (de alto risco);

– pagamentos de executivos: foram instituídos novos princípios de pagamento e compensação para evitar esquemas de pagamento que encoragem o risco execessivo e levam ao pagamento dos hoje combatidos bônus;

– reservas bancárias: os bancos devem constituir mais capital durante as épocas boas para conseguir enfrentar os cenários ruins, mas apenas quando se recuperarem. Muitos bancos precisaram de injeções de capital durante a crise;

– agências de classificação: essas companhias, muito criticadas por dar alta classificação para ativos que se mostraram arriscados. terão um código internacional de ação para eliminar conflitos de interesses;

– comércio: rejeição de medidas comerciais protecionistas e mais outros US$ 250 bilhões para ajudar a destravar o comércio global. Alem disso, foi fechado um acordo para “atuar urgentemente” na conclusão da Rodada de Doha de liberalização do comércio mundial;

– paraísos fiscais: será plublicada uma lista desses “locais”, que poderão sofrer sanções se não concordarem com as regras impostas pela comunidade internacional.

A grosso modo o resultado do encontro do G-20 pode ser considerado muito positivo já que a agenda dos países ricos (do pessoal de olhos azuis) encontrou muitos pontos de concordância com a dos países pobres. Bem verdade, que dado o avançar da crise, os líderes mundiais não tinham muitas opções, a não ser segurar nas mãos uns dos outros e rezarem juntos.

Minha vó sempre dizia: “De onde menos se espera que saia alguma coisa… daí mesmo que não sai nada!”. Dessa vez saiu.

Bibliografia:
Jornal O Estado de São Paulo, edição 42.171 de 03 de abril de 2009
Revista Isto É Dinheiro, edição 600 de 08 de abril de 2009
Revista da Semana, edição 82 de 09 de abril de 2009

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br