Encontro do G-20: uma reflexão

Minha vó sempre disse: ” Do limão você deve fazer uma limonada”.

Se considerarmos que a crise do subprime é o maior e mais azedo limão da história econômica, taí a hora certa de comerçarmos a fazer nossa limonada.

Em inha opinião ela já começou a ser feita em Londres no último mês de março durante a Reunião do G-20. Apesar da pirotecnia que esse tipo de encontro cria, como por exemplo:
– Barack Obama esbanjou seu poder e não descuidou de espalhar o sucesso de sua intervenção numa disputa entre França e China sobre paraísos fiscais.

– Nicolas Sarkozy, que antes ameaçara deixar a cúpula, nem esperou o anúncio oficial do resultado. Correu para os repórteres franceses para reivindicar um crédito pessoal nos “avanços imensos” para superar os equívocos do capitalismo anglo-saxão.

– O presidente Luiz Inácio Lula da Silva circulou com desembaraço entre os dezenove líderes – ainda que oito sejam inequivocamente brancos e três tenham olhos decididamente azuis – e levou para casa o elogio de que é “o político mais popular da Terra”.

– Gordon Brown, ávido por colher em casa um sucesso que vitaminasse sua chance de manter o cargo na próxima eleição, não deixou por menos. Anunciou a aurora de uma “nova ordem mundial”.

O saldo foi extremamente positivo, pois criou uma atmosfera de reflexão sobre os exageros cometidos no mundo financeiro e em última instância os exageros do próprio capitalismo.

Se nos anos de “vacas gordas” o mundo comemorava o consumo desenfreado dos americanos e sua incrível capacidade de inovação no mercado financeiro, agora todo mundo acusa a pátria de Obama de insensíveis e imprevidentes.

Em Londres, Obama avisou que ninguém deveria esperar que os EUA voltassem ao nível de consumo de antes. Sua declaração ficou abafada pela sonoridade dos trilhões, mas é transcendental. Significa que a cadeia mundial de produção e consumo sofrerá uma transformação excepcional, para o bem ou para o mal. Por isso, a crise é a mais grave ameaça de retrocesso da globalização da era moderna.

A questão é que desde o início do século passado, quando a I Guerra estancou a globalização – e inaugurou um período de recessão e pobreza, nacionalismo e xenofobia, comunismo e fascismo –, o mundo não enfrentava ameaça desta envergadura.

Tudo isso dá um ar intrigante às manifestações que tomaram as ruas de Londres. Afinal, os manifestantes protestavam contra a globalização, que entrou em crise? Ou protestavam contra a crise, que ameaça a globalização? Mas, apesar da bússola um pouco desorientada, eles buscam o que sempre buscaram todos os jovens não conformistas desde a queda do Muro de Berlim: uma utopia pós-capitalista.

Faz sentido? Sim, basta examinar o notável simbolismo de algumas passagens da cúpula do G-20 – elas mostram que o capitalismo está passando por mudanças profundas.

É a hora, afinal, de discutir o futuro, ainda que haja diferenças abissais entre o que querem as ruas de Londres (a morte do capitalismo?) e o que querem os líderes do G-20 (um capitalismo mais servo do que senhor?).

O simbolismo está, em primeiro lugar, no declínio do Consenso de Washington, conjunto de políticas que orientou as reformas econômicas nos últimos vinte anos. Já não se vê como condição prévia para o desenvolvimento a desregulamentação ampla e geral dos mercados. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já não condiciona seus empréstimos à adoção de políticas econômicas restritivas. “O velho Consenso de Washington acabou”, disse Brown. Acabar, não acabou, mas não será mais seguido como as Tábuas da Lei e único caminho para a prosperidade. A cúpula também mostrou que, pelo menos por ora, entrou em declínio o incontrastável predomínio dos EUA e da Europa, em especial da Inglaterra, sobre instituições globais como o FMI e o Banco Mundial.

Apesar das sentenças de morte do capitalismo, a volta do estado-empresário (alguém aí lembrou do BNDES) e o clamor pelo protecionismo, a crise deve pavimentar a estrada para um sistema econômico internacional mais regulado, mais seguro e talvez menos desigual.

É esperar para ver o que tipo de limonada “brancos de olhos azuis” vão preparar para o resto do mundo.

Bibliografia:
Revista Veja, edição 08 de abril de 2009

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br