Cuidado com a corrente do calote

O problema da economia é que tudo está relacionado.

Uma crise bancária no mercado financeiro americano acaba influenciando num aperto de crédito no Brasil, que por sua vez deixa as empresas sem acesso a recursos.

Como o crédito pára de irrigar a economia, investimentos deixam de ser feitos gerando desemprego. Pessoas sem trabalho acabam atrasando o pagamento de seus compromissos e por aí vai.

É exatamente o avanço da inadimplência do consumidor começa a provocar um efeito cascata na economia nacional e já chega às grandes empresas. Se, até o momento, eram as empresas pequenas e médias que vinham apresentando maiores dificuldades para honrar seus pagamentos, agora as grandes também começam a enfrentar esse problema e estão tendo de fazer uma verdadeira “ginástica financeira”. A alternativa adotada tem sido negociar prazos, cortar funcionários e investimentos ou eleger contas prioritárias para pagamento – o que tem elevado as estatísticas de inadimplência entre empresas. Só em fevereiro, a alta foi de 20,6% em relação ao mesmo mês do ano passado, de acordo com dados da empresa de análise de crédito Serasa Experian.

Quando não há acordo, a dívida entre as empresas acaba parando na Justiça. No primeiro bimestre, o volume de títulos protestados (apenas de pessoas jurídicas) subiu 40% em relação a 2008, segundo dados da empresa de solução para gestão de risco Equifax. O volume de cheques devolvidos subiu 23%. Um dos efeitos disso foi o aumento de 25,16% no número de falências no Brasil.

No caso dos consumidores, os compromissos com cartões de crédito concentravam 37,1% dos problemas com inadimplência no trimestre, também maior do que os 31,4% de participação apurados um ano antes. A dívida média no período foi de R$ 386,86 – valor 13,3% menor do que o verificado no primeiro trimestre do ano passado.

Em relação aos cheques sem fundo, a fatia caiu de 23,4% para 17,6% de janeiro a março deste ano, com dívida média de R$ 828,70, uma alta de 31,2% em relação ao mesmo intervalo do ano passado.

O Jornal O Estado de São Paulo traz um exemplo muito interessante sobre como a inadimplência se propaga:

“No setor têxtil, essa “corrente do calote” já é perceptível. Pequenos varejistas ou sacoleiros com dificuldades em receber de seus clientes pessoas físicas pedem mais prazo a fornecedores – como os fabricantes de roupas -, que, por sua vez, têm de renegociar suas dívidas com seus próprios fornecedores, as grandes tecelagens.

“Essa situação tem sido muito ruim para a indústria”, diz o empresário Eliezer Turco, sócio da Bordados Sulamita, empresa instalada há 30 anos em Ibitinga, no interior de São Paulo. Conhecida como a “capital nacional do bordado”, a cidade convive com representantes comerciais de redes de varejo e também com os sacoleiros, que invadem as ruas do município em busca de novidades no mercado de enxovais.

Na Bordados Sulamita, a devolução de cheques – de pessoa jurídica ou dos sacoleiros – dobrou em relação ao ano passado. Isso sem contar o aumento do número de clientes que pedem a prorrogação dos prazos de pagamento, para até 120 dias. “Não tenho alternativa. Se não estender um pouco o prazo, não recebo nada”, diz Turco, destacando que tudo depende do cliente que faz o pedido.

Com o caixa debilitado e sem crédito, a saída da Sulamita foi adotar a mesma estratégia dos clientes: pedir a extensão dos prazos das dívidas com as indústrias de tecelagem. “Não temos margem para fazer milagres”, destaca Turco, explicando que a empresa foi obrigada a demitir 15% do quadro de funcionários por causa da crise.

Na outra ponta da corrente, no caso da indústria têxtil, estão as grandes tecelagens, que veem aumentar o pedido de renegociações de dívidas. Na Teka, por exemplo, os pedidos de aumento de prazos não partem apenas dos clientes nacionais, mas também dos estrangeiros. A empresa, porém, tem sido resistente, diz o diretor de relações com investidores da companhia, Marcelo Stewers. “Na compra, eles já pedem descontos entre 15% e 25%. Em alguns casos, a gente cede. Em outros, a gente não vende.””

Os números negativos pegaram os empresários no contrapé. Muitos tinham acabado de fazer investimentos pesados para atender a uma demanda cada vez maior. De repente, passaram a conviver com escassez de crédito, queda na receita e inadimplência. Tal situação dificultou o planejamento das empresas, implicando no aumento dos prazos de pagamento dos clientes para evitar a inadimplência. Contudo essa gestão de curto prazo posterga investimentos e dificulta a criação de estratégias para exatamente enfrentar a crise.

A escalada da inadimplência em função de seu “efeito corrente” impactando no caixa das empresas, dificultando sua tomada de decisão, gerando desemprego e por consequência mais inadimplência.

Bibliografia:
Jornal O Estado de São Paulo de 13 de abril de 2009
Jornal do Brasil de 14 de abril de 2009

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br