Crise: previsões sobre o fim do mundo não faltam

A semana passada foi pródiga em más notícias. Os números realmente estão contra nós.

Se não vejamos:

– O IBGE divulgou recuo do PIB| de 3,6% no quarto trimestre do ano passado;

– dados do Sindicato das Pequenas e Médias Empresas de São Paulo indicam queda de 19% nas vendas nos dois primeiros meses deste ano;

– também o IBGE divulgou uma redução de 1,3% do emprego industrial em janeiro deste ano;

– pesquisa da CNI, entre os dias 4 e 11 de março, mostra que 54% das indústrias já demitiram por causa da crise e que para 40% dos empresários as medidas adotadas pelo BC não foram eficientes. Em janeiro, as vendas da indústria caíram 13,4%, se comparadas com o mesmo mês de 2008;

– o consumo das famílias, que sustenta a demanda interna por produtos e serviços, recuou 2% entre outubro e dezembro passados;

– o governo brasileiro, sempre tão otimista em suas previsões, reduziu pela metade a sua expectativa de expansão da economia, de 4% para 2% em 2009.

Além da divulgação destes preocupantes indicadores, o Brasil ainda teve o “prazer” de receber uma visita “ilustre”: o economista Nouriel Roubini, conhecido mundialente como o “Dr. Apocalipse”, por ter sido um dos únicos a prever a Crise do Subprime. Roubini esteve em São Paulo, na quarta-feira 11, a convite da BTG, dos financistas André Esteves e Pérsio Arida. Com uma voz de Conde Drácula ele fez jus à fama. Começou dizendo que a economia mundial está em “coma”. Depois, disse que um dos clientes de sua consultoria, uma das maiores multinacionais americanas, lhe confidenciou não saber se, daqui a dois anos, a empresa ainda estará viva. Roubini falou em “tsunami”, em “Armagedon” e também num “Triângulo das Bermudas” macroeconômico. Chegou até a brincar com a plateia sugerindo que talvez fosse o caso de se estocar “armas, munição e alimentos”. E avisou que o mundo não sairá da recessão atual antes do fim de 2010.

A semana foi difícil.

Contudo, temos pelo menos uma boa notícia: a redução da taxa básica de juros em 1,5 ponto percentual, caindo para 11,25%, no que foi o maior corte nos juros desde novembro de 2003. Certamente a SELIC ainda está em patamares muito elevados, mas já é consenso entre economistas que sua trajetória é de queda até o fim de 2009.

A questão mais abrangente é: até onde vai essa crise? E a divulgação de tantos indicadores ruins é o início do fim?

Infelizmente ainda é cedo para dizer quando a crise vai acabar. Contudo, qualquer estudante do primeiro semestre de economia sabe é que ela vai acabar em algum ponto (na economia, ao contrário da religião, não existe fim do mundo). A recuperação é certa, só não sabemos se ela terá forma de V (queda abrupta seguida de forte recuperação), ou forma de U (queda com retomada lenta) ou no pior dos cenários L (queda, com retorno apenas no longo prazo).

Indicadores sempre existiram e sempre existirão. Países que se consideram desenvolvidos (como os Estados Unidos) são fanáticos por números, já que eles deixam claro uma tendência para o futuro. O que está acontecendo no noticiário econômico é que nunca o brasileiro teve acesso ou interesse por tantos números, o que numa situação de retração serve apenas para causar mais incerteza. O que os números divulgados informam é que estamos atravessando um fase severa de redução na atividade econômica, mas em nenhum momento indicam que o fim está próximo, ou o capitalismo vai deixar de existir (ou bobagens como essa).

Numa situação de crise, há uma reacomodação dos preços. Por exemplo, se antes de outubro/2008 você conseguia vender seu carro usado por R$ 40 mil, talvez agora em março/2009, em função das expectativas negativas sobre o futuro (queda no PIB, aumento do desemprego, redução na produção industrial) você seja obrigado a reduzir seu preço para R$ 20 mil por exemplo, para conseguir compradores.

No mercado de trabalho o movimento é o mesmo. Se você perdeu seu emprego que pagava um salário de R$ 6 mil em outubro/2008, agora em março/2009 (em função do aumento do número de pessoas buscando recolocação) você tenha que aceitar um salário de R$ 3 mil, se quiser voltar ao mercado.

Ou seja, preços mudaram (devido a expectativas). Para que mercadorias sejam vendidas, vagas sejam abertas será necessário que os agentes aceitem esses novos preços para que novos negócios sejam feitos.

Portanto, não é o fim do mundo. Até porque o fim do mundo (assim como o bicho papão) não existe.

Bibliografia:
Revista da Semana, edição 79 de 19 de março de 2009
Revista Isto É Dinheiro, edição 597 de 18 de março de 2009
Risvista Isto É, edição 2053 de 18 de março de 2009

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br