Cada um tem o “marknadsbevis” que merece

Crises bancárias não são novidade na história econômica.

De fato, elas acontecem de tempos em tempos e suas características geralmente são as mesmas:
– uma inovação financeira é criada
– esse ambiente de novidade é acompanhado por desregulamentação por parte do Estado
– o mercado exagera e começa a especular
– ganhos estratosféricos retroalimentam a crise
– um banco quebra e começa o pânico
– o pânico se instaura e se retroalimenta criando a crise.

Mais válido do que saber reconhecer as características de uma crise bancária é saber como resolvê-la. Nisso os suecos têm um bom exemplo a dar através da solução aplicada para resolver a severa crise econômica que se abateu sobre o país no início dos anos 90.

Se os americanos tiveram o “subprime” seus primos nórdicos tiveram os “marknadsbevis”.

Os “marknadsbevis” são certificados emitidos por financeiras e garantidos pelos bancos para angariar recursos e conceder empréstimos a empresas e pessoas. Por causa da onda de crédito fácil e da fiscalização falha do governo, esses papéis se espalharam pela Suécia, contaminando toda a economia. Não demorou muito tempo para ganhar corpo a desconfiança de que esses certificados encobriam operações arriscadas. E os bancos, repletos de papéis podres na mão, quebraram.

O governo sueco de então soube vencer os efeitos nocivos dos “marknadsbevis”. Agiu rapidamente e saneou o sistema financeiro ao adotar medidas drásticas. O enfrentamento correto da crise levou o país de volta à normalidade. Não é à toa que autoridades de países desenvolvidos, desnorteadas diante da crise, estejam reexaminando o exemplo sueco.

Para garantir todas as transações financeiras e o bom funcionamento do mercado, o governo sueco exigiu mudanças de comportamento dos banqueiros atolados em dívidas, até para evitar repetições no futuro. Eles foram obrigados a levantar detalhadamente informações sobre os créditos concedidos. O Banco Central sueco queria separar os empréstimos bons dos podres, aqueles de difícil recuperação. Criou empresas para administrar a parte considerada “ruim”. O governo também se apropriou de boa parte do capital dos bancos – um processo conhecido como nacionalização do sistema financeiro. O pacote, polêmico na ocasião, só saiu da teoria porque teve apoio político da oposição. No auge da crise, o governo deteve mais de 20% dos ativos financeiros do país. Na esteira das mudanças, as autoridades também revisaram o intrincado sistema de impostos e deixaram a coroa sueca flutuar, tornando a economia mais dinâmica.

E funcionou.

A economia, que tinha travado por causa da falta de regras financeiras e do estouro da bolha imobiliária, voltou a respirar. Em 1994 e 1995, o PIB cresceu 4% por ano. O desemprego foi cedendo e o sistema bancário tornou-se saudável mais uma vez. O Banco Central deixou de ser o garantidor das transações financeiras porque a normalidade fora restabelecida. O governo abriu o capital dos bancos gradativamente. Segundo especialistas, boa parte do dinheiro empregado no combate à crise voltou aos cofres públicos. O Estado, que também é acionista de bancos, ganhou quando essas instituições voltaram a dar lucro, bem como a população (na forma de serviços públicos de qualidade). No final, o pacote de combate à crise não teria custado nem 2% do PIB sueco, segundo algumas estimativas, embora não haja conta fechada e consensual sobre os custos.

O governo ainda tem participação acionária em bancos importantes como o Nordea, com forte atuação nas vizinhas Dinamarca e Noruega. Alterações no regime cambial permitiram ao país se internacionalizar mais. Atualmente, 52% do PIB sueco tem como origem as exportações.

O Japão é sempre lembrado como a antítese da Suécia no início dos anos 90. Sofreu os mesmos problemas, mas não cobrou contrapartida dos banqueiros. No jargão dos economistas, não “sangrou” os banqueiros. Com essa atitude, só se safou da péssima situação econômica no final da década. “Se intervenho num banco, eu preciso receber capital para que o contribuinte não saia perdendo”, diz o ex-ministro das Finanças da Suécia Bo Lundgren. Recentemente, ele foi aos EUA detalhar como a Suécia enfrentou a crise nos anos 90.

Anos mais tarde, o exemplo dos escandinavos serviu de parâmetro para o Fundo Monetário Internacional (FMI) tentar recuperar o fôlego das economias dos tigres asiáticos no fim dos anos 90. Política semelhante foi empregada no Brasil, com o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional (Proer), na metade da década: o Banco Central socorreu bancos que estavam em apuros para não comprometer o sistema bancário. Recentemente, o presidente Lula que acha que os culpados da crise são “os brancos de olhos azuis” elogiou o programa lançado no governo de Fernando Henrique Cardoso.

O debate sobre a nacionalização dos bancos vem crescendo, assim como o interesse nas medidas tomadas pela Suécia durante sua própria crise bancária.

Apesar de já ser vista uma luz no fim do túnel em função dos resultados positivos da reunião do G-20 em abril, ainda é cedo para comemorações.

A questão é: entre o imobilismo do Japão e as respostas rápidas dada pela Suécia e pelo próprio Brasil, da equipe de Obama esperam-se propostas e ações que possam de uma vez por todas fornecer segurança para o sistema financeiro americano.

Como eu disso no título desse artigo: Cada um tem o “marknadsbevis” que merece.

Bibliografia:
Revista Época, edição 566 de 23 de março de 2009

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br