ENTENDA: Brasil Importa Inflação dos EUA

A expressão “guerra cambial” cunhada pelo Ministro da Fazenda Guido Mantega, é cada vez mais freqüente nos noticiários e na pauta das reuniões internacionais dos Chefes de Estado. A política americana de moeda fraca adotada nos últimos quatro anos a fim de equilibrar sua balança comercial fez com que o dólar se desvalorizasse frente às demais moedas.

No Brasil, o real se valorizou 108% frente ao dólar americano durante o governo Lula. Esta valorização preocupa o governo brasileiro por prejudicar as contas externas, pois o real valorizado deixa os produtos brasileiros mais caros no exterior, prejudicando os exportadores, estimulando as importações em detrimento das exportações.

Durante a crise de 2008/2009 a fim de salvar os grandes bancos e empresas da falência e resgatar a economia americana da recessão, o FED adotou uma política monetária expansionista, injetou trilhões de dólares no mercado por meio de compra de títulos públicos (US$ 1,725 trilhões, por enquanto) e privados e pela expansão do crédito. O dólar por ser uma moeda de aceitação mundial, não se limita só ao mercado norte americano e o excesso de dinheiro que o FED coloca no mercado acaba inundando outras áreas pelo mundo, onde a moeda americana busca remuneração principalmente em moedas de países emergentes e em commodities.

O problema que as economias emergentes de câmbio flutuante se defrontam é que para conter a valorização de suas moedas, elas são obrigadas a tomar medidas que impactam nas suas contas publicas, e mais gastos públicos geram pressões inflacionárias.

Para ficar mais claro vamos analisar o que ocorre aqui no Brasil.

Com a constante valorização do real frente ao dólar, o BC brasileiro intervém no mercado financeiro a fim de diminuir e/ou evitar que a valorização do real seja mais intensiva, estas intervenções são feitas por meio do acumulo de reservas internacionais, compra de dólares no mercado à vista, swaps cambiais, aumento do IOF para investimento estrangeiro entre outras.

Só que manter tais reservas internacionais (hoje na casa dos US$ 300 bilhões) custa muito caro aos cofres públicos, estima-se cerca de R$ 26 bilhões por ano, equivalente a 1% do PIB brasileiro de 2010, 2,5 vezes o que o governo gasta com o Programa Bolsa Família. Isso ocorre porque ao manter essa poupança externa, é necessário aumentar o endividamento público por meio de emissões de Títulos do Tesouro, cujas taxas de juros são muito superiores aos dos títulos do tesouro americano, onde se concentram a maior parte das reservas internacionais brasileiras aplicadas no exterior, ou seja, emite títulos públicos com taxas próximas de 9% ao ano para aplicar nos EUA a taxas menores que 1,9%.

Os elevados custos para manter as reservas internacionais, junto com o aumento da cotação das commodities e demais fatores, geram fortes pressões inflacionárias aqui no Brasil, portanto o BRASIL IMPORTA INFLAÇÃO DOS EUA. O FED ao colocar dólares no mercado para estimular a economia americana esta de certa forma exportando sua inflação para o resto do mundo. O Brasil por ser uma economia com elevadas taxas de juros, boa perspectiva de crescimento, valorização dos ativos e estabilidade econômica, é uma ótima opção para investidores e especuladores que buscam remuneração para seus dólares, o que faz o Brasil ser um receptor desses recursos.

João Carlos Simionato 10/01/2011

Autor: jcsimionato

Especialista em Finanças pela UFPR, graduado em Economia pela UFPR . Certificado de Especialista em Investimentos ANBIMA CEA® além de CPA-20 e CPA-10. Já trabalhei em outra instituição financeira, atualmente sou assistente no Banco do Brasil. Também sou professor de cursos preparatórios para as certificações da ANBIMA e de formação básica em mercado financeiro e afins. Tenho um vasto conhecimento em investimentos, mercado de capitais, bolsa de valores, ferramentas de mensuração e gestão de riscos, matemática financeira e afins. Blog: http://marketseconomy.blogspot.com.br