A crise e o Momento Minsky

“Eu gradualmente passei a acreditar que a maior força da economia americana era sua resistência, sua habilidade de absorver perturbações e se recuperar, freqüentemente de formas e em um ritmo que você nunca poderia prever, muito menos ditar.” Alan Greenspan, “A Era da Turbulência”.

Todos esperamos que Mr. Greenspan prove estar certo sobre a economia americana. Contudo em março de 2009 temos lá nossas dúvidas. Greenspan que até poucos meses era considerado “O maestro”, agora já é apontado como um dos principais responsáveis pela crise.

Mas como a economia americana entrou nessa situação tão difícil?

Um argumento que está ganhando ares de consenso entre os líderes mundiais é de que esta crise é um produto de um sistema financeiro fundamentalmente falho.

O argumento seria o de a inovação financeira e um entusiasmo em assumir novos riscos geram rápido aumento do crédito, que provoca alta dos preços dos ativos, vendas em pânico, congelamento de crédito, insolvência em massa e recessão. Um sistema de crédito não regulado, seria inerentemente instável e desestabilizador.Esta linha de argumento é associada ao falecido Hyman Minsky (1919-1996), que lecionava na Universidade de Washington, em Saint Louis.

O destaque da tese de Minsky é a idéia de que o capitalismo é inerentemente instável. É dele um estudo, publicado em 1982, que a crise do subprime está transformando em clássico: “Pode ””Aquilo”” Acontecer de Novo?” (Can ””it”” happen again?). “Aquilo” é referência à depressão que se seguiu ao crash de 1929.
No livro, Minsky diz que a “estabilidade é instável”, uma de suas frases mais conhecidas. Dito de outra maneira, ele demonstra que as expectativas dos agentes econômicos se alternam conforme o estágio do ciclo econômico.

No início do processo, as empresas apresentam solidez porque os preços dos ativos são estabelecidos de maneira conservadora e as dívidas assumidas são pequenas em relação a eles.

Mas a ausência de dificuldades sérias conduz ao desenvolvimento de uma economia expansionista (eufórica), e então ocorre o aumento do financiamento de curto prazo de posições de longo prazo.

Aí, o êxito econômico e os bons resultados contínuos fazem com que banqueiros e empresários reavaliem positivamente suas expectativas e passem a aceitar maiores níveis de endividamento. Para fazer frente a tal situação, considerando uma dada quantidade de reservas disponíveis, criam novas práticas financeiras e novas instituições.

Durante o “boom”, as inovações financeiras se propagam e permitem a sustentação do investimento e do preço dos ativos. Ao longo de um “boom”, assim, as empresas, os acionistas e as instituições financeiras assumem continuamente posições mais arriscadas e especulativas.

Quando aumenta o perigo de calote, a demanda por liquidez aumenta e as empresas e as instituições financeiras tentam vender ativos para pagar dívidas. Chega-se, então, ao “momento Minsky”, no qual a economia é empurrada para o abismo recessivo em um cenário de abrupta deflação de ativos.

Ao contrário do que possa parecer Minsky, não tinha nada contra as instituições financeiras.

Por muitos anos, atuou como diretor do Banco Mark Twain, em St. Louis. Graças a sua experiência ele sabia mais sobre como os bancos funcionam do que muitos de seus colegas da academia.

Aplicando a teoria ao Subprime
Existem, basicamente, cinco fases no modelo de Minsky para o ciclo econômico: “desordenamento”, “boom”, “euforia”, “lucro”, e “pânico”.

O “desordenamento” ocorre quando os investidores ficam animados sobre algo, uma invenção, como a Internet, ou uma guerra, ou uma brusca mudança de política econômica. O atual ciclo americano começou em 2003, quando Alan Greenspan reduziu as taxas de juro para um por cento, e um inesperado afluxo de moeda estrangeira, principalmente dinheiro chinês para a compra de títulos do Tesouro.

Com o custo dos empréstimos, taxas hipotecárias, em particular, em patamares baixíssimos, um “boom” especulativo rapidamente se desenvolveu chegando a patamares maiores que a bolha anterior: a das empresas ponto.com.

Como um “boom” leva à “euforia”, os bancos e outros credores comerciais começaram a liberar cada vez mais crédito para os devedores com risco maior, muitas vezes criando novos instrumentos financeiros para fazer o trabalho. Durante a década de oitenta, “junk bonds” desempenharam esse papel. Mais recentemente, foi a securitização de hipotecas, o que permitiu aos bancos fornecer crédito imobiliário sem se preocupar se ele algum dia seria pago.

Durante os anos das “vacas gordas”, o “lucro” embolsado por bancos e corretoras com o subprime foi gigantesco atraindo cada vez mais operadores para esse mercado, aumentando ainda mais a oferta de crédito.

O pânico geralmente tem início com algum evento dramático e no caso do subprime não foi diferente. Em 16 de setembro de 2008, anunciou-se a quebra do banco Lehamn Brothers, o segundo maior banco de investimentos americano, afundado pelo peso de US$ 60 bilhões em dívidas “incobráveis”. Os ativos do banco avaliados em US$ 639 bilhões não foram suficientes para honrar dívidas de US$ 613 bilhões, resultando na maior falência desde que a WorldCom desmoronou em 2002.

Ainda segundo Minsky, o pânico alimenta a si mesmo até que uma ou mais entre três coisas aconteça:
– os preços caiam tanto que as pessoas sejam novamente tentadas a voltar a comprar;
– o mercado de ações seja interrompido através do estabelecimento de limites para as quedas de preço, fechamento de bolsas de valores ou, ainda, encerramento das transações;
– um fornecedor de recursos de última instância (o Banco Central) obtenha sucesso em convencer o mercado que haverá disponibilidade de dinheiro em volume suficiente para satisfazer a demanda.

Infelizmente essa última parte da teoria foi a única que ainda não vimos se concretizar.

Bibliografia:
Have we reached a Minsky moment? Publicado no site MoneyWeek em 05 de abril de 2007
The Minsky moment. Publicado no site da Revista New Yorker em 04 de fevereiro de 2008
What`s a Minsky moment. Publicado no blog SeatlheTechReport em 18 de agosto de 2007
Are we at the peak of a Minsky Credit Cycle? Publicado no site RGE Monitor em 30 de julho de 2007
Housing and Monetary Policy. Publicado no site da Revista Financial Times em 1º de setembro de 2007
Dossiê da Crise. Publicado no site www.ppge.ufrgs.br/akb em novembro de 2008
Momentos Keynesianos, publicado no Jornal Valor Econômico em 14 de novembro de 2008
Kindleberger, Charles Poor. Manias, pânico e crashes: um histórico das crises financeiras/Charles Kindlebergber; tradução de Vância Conde, Viviane Castanho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

Autor: Alexsandro Rebello Bonatto

Sou economista, especialista em Economia e Finanças com MBA em Gestão Empresarial. Sou professor de economia de um curso de Tecnologia e sócio de uma consultoria especializada em treinamentos corportivos. Meu trabalho pode ser conferido no site: www.venturacorporate.com.br