O caso Stanford – Um golpe de 8 bilhões de dólares

Como diz o ditado popular: “Desgraça pouca é bobagem”. Quando achávamos que a crise do Subprime era o “fundo do poço” e o caso Madoff era “a pá de cal”, somos surpreendidos por mais um golpe financeiro: o caso Stanford.

O golpe
A SEC – Securities and Exchange Commission (Comissão da Bolsa de Valores dos Estados Unidos) acusou o multimilionário texano Robert Allen Stanford de operar um fundo de investimentos fraudulento com o qual captou US$ 8 bilhões junto a investidores.

Stanford alegava que tinha alcançado uma rentabilidade de dois dígitos nos últimos 15 anos, e garantiu às vítimas que os depósitos eram seguros, pois investia principalmente em ativos financeiros “líquidos”, o que era mentira, de acordo com a SEC.

Quando os investidores ficaram nervosos com a descoberta da fraude supostamente realizada por Bernard Madoff, o Banco de Stanford informou que não tinha qualquer investimento “direto ou indireto” nos fundos do financista. Contudo, segundo o relatório de acusação da SEC, uma das companhias de Stanford tinha aplicado cerca de US$ 400 mil em uma corretora indiretamente controlada por Madoff e sabia do fato, após ter sido informado por um analista. Contudo, a companhia escondeu a aplicação de seus investidores.

Entre as companhias acusadas de participar da fraude estão a Stanford International Bank, com sede na ilha caribenha de Antígua, a Stanford Group Co., baseada em Houston, nos EUA, e a consultoria Stanford Capital Management, que tiveram parte de seus ativos congelados. Além disso, o grupo Stanford possui vários negócios na América Latina, o que fez com que muitos acionistas ficassem preocupados.

A fraude do Stanford Group não se limitou à venda de certificados de depósito, conforme a SEC. Desde 2005, os consultores do Stanford Group venderam mais de 1 bilhão de dólares de um fundo de investimento que apresentava dados de desempenho falsos.

Allen Stanford é cidadão dos EUA e de Antígua e Barbuda, depois de se ter nacionalizado naquela nação das Caraíbas há 10 anos, segundo a biografia que consta no “site” da empresa. Foi ordenado cavaleiro pelo governo de Antígua em 2006 e usa agora o título de “Sir”.

O Stanford Group tem 19 escritórios nos EUA e mais de 43 mil milhões de dólares sob gestão ou consultoria.

Pânico na América Latina
O anúncio feito pelo governo dos Estados Unidos causou preocupação e uma corrida aos bancos da empresa em países da América Latina e do Caribe.

Em países como Venezuela, México e na ilha caribenha de Antígua e Barbuda (paraíso fiscal onde Stanford tem grandes investimentos), centenas de pessoas correram às agências bancárias ligadas ao grupo para checar suas economias ou retirar dinheiro, com medo de que os ativos dos bancos sejam congelados.

A Venezuela confiscou as operações locais do Stanford International Bank, depois que centenas de investidores se aglomeraram em frente do escritório do banco, em Caracas, na tentativa de recuperar seus investimentos. Stanford era particularmente ativo na Venezuela, tirando vantagem da fuga de capital desencadeada pelas tentativas do presidente Hugo Chávez de fundar o que ele chama de “socialismo do século XXI”. Desde que o governo implantou controles de capital em 2003, os venezuelanos vêm procurando meios de tirar seu dinheiro do país. Analistas diziam ontem que o Stanford representava uma opção mais fácil do que os bancos americanos ou europeus, uma vez que ele pedia apenas uma cópia de um passaporte e um endereço para fazer depósitos. O Stanford tinha mais de 70 funcionários dedicados a atrair, a partir de Antigua, depositantes venezuelanos com certificados de depósitos denominados em dólares. Analistas familiarizados com as operações do banco disseram que os depósitos típicos estavam na faixa de US$ 80 mil a US$ 200 mil, mas que poucas empresas estão expostas ao banco.

Na esteira das alegações, a autoridade reguladora do mercado de valores mobiliários do Peru suspendeu as operações da subsidiária do Stanford Group Usa em Lima, como medida “preventiva”. A corretora peruana, com ativos líquidos de cerca de 6,8 milhões de sóis novos (US$ 2,1 milhões), não vai operar durante 30 dias sob a ordem imposta pela Comissão Supervisora Nacional de Companhias e Valores Mobiliários (Conasev).
No Panamá, a autoridade que regula a atividade bancária anunciou a tomada do controle da filial do Stanford Financial Group no país.

Já a filial do grupo na Colômbia suspendeu suas operações, com a autorização da Superintendência Financeira do país. Segundo um comunicado divulgado pelo órgão, a Stanford S.A. só poderá utilizar os recursos em seu poder para cumprir operações e compromissos pendentes.

No Equador, uma subsidiária local do grupo anunciou que deverá suspender suas operações na Bolsa de Quito por trinta dias. A filial do grupo no país, no entanto, afirmou que os investidores domésticos não serão afetados pelo escândalo que atinge a companhia nos Estados Unidos, já que ela seria independente da sede americana.

Já na Cidade do México, dezenas de investidores reivindicaram suas economias em frente aos escritórios da Stanford Financial, que mantém suas operações encerradas. Mesmo assim, a mexicana Stanford Fondos divulgou um comunicado onde afirma que o “Stanford International Bank é uma entidade diferente do mesmo grupo”.

Ligações políticas e a conduta da SEC causam embaraço
Em 2007, quando a SEC descobriu que o Stanford Group não tinha o capital líquido necessário para atuar como corretora, a empresa pagou US$ 20 mil para encerrar a questão. Mais tarde, no mesmo ano, foi censurada e desembolsou outros US$ 10 mil para se livrar da acusação de fornecer “informações enganosas, injustas e parciais” sobre os seus certificados de depósito, como indicam os registros da FINRA – Financial Industry Regulatory Authority, braço da SEC que monitora Wall Street.

No final de 2008, o grupo Stanford pagou US$ 30 mil para resolver uma terceira onda de acusações da FINRA, desta vez por não reportar como deveria os métodos de pesquisa e de avaliação de determinados títulos. Segundo um resumo das violações postado no site da FINRA, há dois anos a companhia distribuiu material de vendas que não revelava sua afiliação a um banco relacionado, tendo “falhado em apresentar um tratamento justo e equilibrado dos riscos e benefícios potenciais” dos instrumentos que comercializava como certificados de depósito.

Com a emergência de novos detalhes sobre o histórico da companhia, a corte do Stanford Group aos legisladores de Washington também começou a entrar em foco. Durante anos, Allen Stanford e as entidades a ele associadas injetaram rios de dinheiro no Congresso, via doações a campanhas, viagens e conferências em resorts. Não há provas de que isso tenha influenciado o julgamento dos reguladores, mas, segundo o Center for Responsive Politics, o empresário, juntamente com seus funcionários e lobistas, doou US$ 2,4 milhões a campanhas políticas desde 2000. Os maiores beneficiados incluíram o senador democrata Bill Nelson, que recebeu US$ 45,9 mil, e o senador republicano John McCain, com US$ 28,15 mil. Mas cerca de dois terços do total foram para os democratas, diz a entidade.

Os registros financeiros das campanhas também mostram que, em 2008, Allen Stanford doou pelo menos US$ 28 mil aos comitês controlados pelo deputado democrata Charles B. Rangel, campeão em leis que favorecem os interesses econômicos de países e habitantes do Caribe.

As viagens foram outro recurso da corte aos legisladores. Logo após a eleição de 2004, por exemplo, o Stanford Group levou o senador republicano texano John Cornyn, juntamente com a mulher, para uma viagem de três dias a Antigua e Barbuda – ou melhor, para uma “missão de apuração do status das indústrias locais de serviços financeiros”, como registrou a LegiStorm, que monitora as transgressões éticas do Congresso.

Uma vida de luxos e mordomias
Entre os ativos do empresário, está uma frota de aviões, um iate com 40 metros de comprimento e várias propriedades.

“Ele possui restaurantes, aviões e até uma ilha nas Caraíbas”, lê-se nos documentos de um processo judicial que Stanford enfrentou no ano passado.

Através da sua empresa Aviation LLC, o empresário tem à sua disposição uma frota de aviões particulares que inclui dois aparelhos ‘Gulfstream””G-IV, e mais quatro jatos.

O multimilionário, sua ex-companheira e os seus dois filhos também costumavam viver no Castelo de Wackenhut, uma mansão de 57 quartos em Miami. No entanto, Stanford e a família optaram por ir viver numa casa de 3.650 metros quadrados em 2004, que alugavam pela soma de 25 mil dólares por mês. O castelo foi demolido no ano passado.

Depois da separação da sua companheira, o multimilionário pagou 673 mil euros por ano em despesas de habitação, alimentação e educação para garantir que os seus filhos mantinham o seu “estilo de vida luxuoso e privilegiado”, indicam os documentos judiciais, que informam a disponibilização de uma limusine e motorista 24 horas por dia, sete dias por semana.

“Tudo o que as crianças precisavam de fazer era pegar no telefone e dizer, ‘por favor venham-me buscar à escola””, ‘por favor levem-me ao ginásio””, ‘levem-me para as minhas partidas de tênis””, e haveria sempre um motorista para as transportar”, lê-se no mesmo documento, que acrescenta que Stanford também ofereceu cinco mil euros em presentes aos professores da academia privada que os filhos frequentam.

As crianças receberam também presentes de Natal e férias no valor de 60 mil euros, tendo sido colocados ainda 700 mil euros para cada uma numa conta bancária gerida por um tutor.

Um pouco de história da família Allen
As raízes da fortuna da família Stanford foram plantadas durante a Grande Depressão, em 1932, quando o avô de Allen Stanford, Lodis, um barbeiro e vendedor de seguros, fundou a sua própria seguradora.
A vocação de Allen para os negócios revelou-se cedo. Aos 13 anos, na sua cidade natal, Mexia, Texas, ofereceu-se para limpar terrenos florestais destinados à construção. Em troca pediu a madeira das árvores, que vendeu como lenha, lucrando 400 dólares. Segundo um amigo, a quantia, uma pequena fortuna em 1963, sobretudo para uma criança, ofereceu-a a uma família que perdeu a casa num incêndio.

A faceta filantrópica manteve-a intacta e hoje está ligado a várias instituições de caridade, com destaque para o St. Jude Children’s Research Hospital, em Memphis, Tennessee.

Os primeiros milhões foram ganhos com o pai, nos anos 80, no ramo imobiliário. Os lucros permitiram criar uma empresa de gestão de investimentos, cuja chefia Allen herdou em 1993. A partir daqui começou a expansão global dos negócios.

Antes da descoberta da fraude Stanford ocupava o 205º lugar na lista dos mais ricos dos EUA, com fortuna de 2,2 bilhões e gestão sobre bens no valor de 50 bilhões.

Depois de se tornar cidadão de Antígua e Barbuda, Caraíbas, onde sediou o Stanford International Bank, pérola do império, ganhou o título de cavaleiro em 2006 naquele país, o primeiro norte-americano a receber tal distinção.

De fato, o multimilionário tem sido uma importante fonte de prosperidade económica para este pequeno país das Caraíbas, onde detém o restaurante ‘Sticky Wicket”” na capital do país com bifes a partir de 29 euros. Stanford também controla os bancos Bank of Antigua e Stanford International Bank, bem como a empresa imobiliária Stanford Cricket Ground.

Sir Allen, como é conhecido, começou também a se interessar pelo mundo dos esportes, investindo na popularização do cricket nas Caraíbas e nos Estados Unidos e patrocinando o golfe, o pólo, a vela e o tênis.
Reside há anos nas Ilhas Virgens americanas e havia desaparecido sem deixar rastro logo no início do escândalo. Felizmente foi encontrado na região da Virginia, e formalmente acusado de fraude em certificados e depósitos do Stanford Financial Group. É ainda suspeito de lavagem de dinheiro do Cartel do Golfo, associação criminosa do norte do México.

Moral da história
Pois é meu caro investidor internacional, você que estava feliz por ter passado incólume da implosão do subprime e da explosão dos fundos de Madoff, espero que tenha escapado de mais uma. Pois como diz um outro ditado popular: “Nada está tão ruim que não possa piorar”.

Bibliografia:
http://br.invertia.com/
http://diario.iol.pt/
http://dn.sapo.pt/l
http://economico.sapo.pt/l
http://euronews.net/
http://noticias.uol.com.br/
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http://www.folha.uol.com.br/
http://www.fraudes.org/
http://www.correiodamanha.pt/
http://www.jornaldenegocios.pt/
http://www.publico.clix.pt/

A semana passada

13 de fevereiro – Pesquisas apresentadas durante o encontro anual da American Association for the Advancement of Science, em Chicago, nos Estado Unidos, indicam que o ato de beijar é uma ferramenta importante para melhorar a qualidade de vida e definir se haverá compatibilidade em um relacionamento. Um dos trabalhos divulgados foi o da neurocientista Wendy Hill, da Lafayette College, na Pensilvânia. Ela avaliou quinze casais, com idades entre 18 e 22 anos, e concluiu que o beijo na boca equilibra uma série de hormônios.Os voluntários foram divididos em dois grupos. No primeiro, o beijo era liberado. Para o segundo, apenas as mãos podiam ficar entrelaçadas. O cortisol, substância que é gatilho para o stress, diminuiu no corpo dos participantes do grupo um. A ocitocina, fundamental no desenvolvimento de afeto e necessidade de cuidado com o outro, aumentou na corrente sanguínea desses mesmos jovens. Esse hormônio, que até há pouco tempo era conhecido por fortalecer os vínculos entre mãe e bebê na hora da amamentação, começa a ser chamado também de “substância do amor” justamente pelas comprovações de que ele entra em ebulição após o contato prazeroso entre as bocas.

13 de fevereiro – O primeiro Governo de união nacional do Zimbábue, liderado pelo presidente Robert Mugabe e pelo primeiro-ministro, Morgan Tsvangirai, tomou posse hoje em Harare em meio à confusão e com cinco ministros além dos previstos. Em um ato no Palácio Presidencial, tomaram posse 18 ministros da União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica (Zanu-PF), de Mugabe; 14 do partido majoritário Movimento para a Mudança Democrática (MDC), de Tsvangirai; e 4 da ala minoritária dessa legenda, liderada por Arthur Mutambara. Em seu discurso inaugural, Tsvangirai prometeu uma revolução: estado de direito, liberdade individual, imprensa independente, reforma econômica e alimento para qualquer zimbabuano, independentemente de sua afiliação política. Nada poderia ser mais distante dos horrores que Mugabe impôs a seu país: colapso econômico, falta de comida, caos políticao, violência generalizada e uma epidemia de cólera que matou ao menos 3,5 mil pessoas.

14 de fevereiro – Mais de 6 mil extremistas alemães reuniram-se no centro de Dresden para lembrar o sexagésimo-quarto aniversário da destruição da cidade pelos bombardeios ingleses e americanos durante a II Guerra Mundial. A marcha é evento tradicional na cidade, cuja devastação virou símbolo do ataque dos aliados contra a Alemanha de Hitler.

15 de fevereiro – segundo resultado do referendo realizado no Venezuela, o o presidente Hugo Chávez recebeu o diretio de disputar eleições seguidas sem limite. A próxima será em 2012. Como o mandato presidencial na Venezuela é de seis anos, se for reeleito ele governará até 2018. Terá completado vinte anos de poder. Se os venezuelanos ainda assim o elegerem para um novo mandato, a próxima oporunidade de mudança será em 2024.

16 de fevereiro – Dois submarinos nucleares, um da França, outro da Inglaterra, carregados de armamentos bélicos se chocaram no oceano Atlântico. Autoridades de ambos os países informaram apenas que a colisão se deu em baixa velocidade e que não houve vazamento de material radiativo.

16 de fevereiro – Anunciado que o PIB (Produto Interno Bruto) japonês caiu 3,3% entre outubro e dezembro do ano passado ante os três meses anteriores. Em termos anualizados, houve contração de 12,7%. As autoridades do Japão já avisaram que, diante do resultado, podem rever o plano de estímulo econômico para frear o desaquecimento.

17 de fevereiro – Comemorou-se na estação rodoviária de Brasília, o Dia Nacional da Roupa de Baixo (pelo terceiro ano consecutivo). Trinta e dois modelos, mulheres e homens, desfilaram seminus na capital do País até se concentrarem na rodoviária. A comemoração terminou com uma festa animada pela escola de samba Acadêmicos da Asa Norte. O desfile foi inspirado no americano Underwear Day, que acontece nas ruas de Nova York há seis anos.

17 de fevereiro – Os cassinos do magnata americano Donald Trump (setor imobiliário) estão à beira da falência. A Trump Entertainment Resorts, empresa que administra áreas de jogos em Atlantic City, está penando com a crise econômica dos EUA e pediu concordata na terça-feira 17. As dívidas do grupo chegam a US$ 1,7 bilhão. O império de Trump, no entanto, não deve ser abalado. Os cassinos são apenas 1% de seus negócios.

17 de fevereiro – O presidente Barack Obma sancionou o pacote de estímulo à economia de US$ 787 bilhões. No dia seguinte anunciou ajuda de US$ 75 bilhões aos mutuários que correm o risco de perder suas casas.

17 de fevereiro – O pedido adicional de US$ 21,6 bilhões feito pela General Motors e Chrysler ao governo americano, não deixou dúvidas de que a ameaça de falência das duas montadoras é real. Tanto a GM quanto a Chrysler já foram contempladas com vultuosas quantias liberadas pelo Tesouro americano em dezembro – US$ 13,4 bilhões para a primeira e US$ 4 bilhões para a segunda –, mas alegam precisar de mais. Juntas as duas gigantes do setor automobilístico devem demitir 50 mil funcionários em todo o mundo até o fim do ano.

17 de fevereiro – A Comissão da Bolsa de Valores dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) acusou o multimilionário texano Robert Allen Stanford de operar um fundo de investimentos fraudulento com o qual captou US$ 8 bilhões com promessas de alta rentabilidade. A SEC divulgou hoje as acusações, enquanto agentes da Polícia federal realizavam operações nos escritórios de Stanford em Houston, no Texas. Stanford é acusado de enganar os investidores, a quem vendeu títulos a prazo fixo conhecidos como certificados de depósito com taxas de juros “improváveis e não justificadas”. Para fazer com que acreditassem no investimento, o Banco Internacional Stanford, com sede em Antígua, criou uma trama de mentiras, segundo a SEC. O banco disse que tinha alcançado uma rentabilidade de dois dígitos durante os últimos 15 anos, e garantiu às vítimas que seus depósitos eram totalmente seguros, pois investiam principalmente em instrumentos financeiros “líquidos”, o que era falso, de acordo com a SEC. Além disso, o banco dizia contar com uma equipe de mais de 20 analistas para fiscalizar as operações, e que estava sujeito às auditorias anuais das autoridades de Antígua, o que também não era verdade, segundo a Comissão.

17 de fevereiro – depois de dez anos de negociações com o governo do Camboja, a ONU finalmente levou um membro do Khmer Vermelho a julgamento. Kaing Guek Eav, de 66 naos, foi acusado formallmente de ter ordenado a morte de milhares de pessoas entre 1975 e 1979. Durante esse período ele comandou o maior centor de tortura do pa´si, o Campo S-21.O Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot, massacrou 1,7 milhão de cambojanos em nove da revolução comunista.

17 de fevereiro – Barack Obama mostrou que a guerra ao Talibã será prioridade em seu governo. Ele ordenou o envio de 17 mil soldados ao Afeganistão para “estabilizar a situação deteriorada no país asiático” segundo comunicado oficial. As tropas americanas devem crescer ainda mais até agosto, mês da eleição presidencial afegã. Hoje há 36 mil soldados no Afeganistão.

Bibliografia:
Revista da Semana, edição 76 de 26 de fevereiro de 2009
Revista Veja, edição 2101 de 25 de fevereiro de 2009
Revista Isto É Dinheiro, edição 594 de 25 de fevereiro de 2009
Revista Isto É, edição 2050 de 20 de fevereiro de 2009

Princípios de economia para entender a crise

Existe um ditado popular que diz: “Quando tudo mais falhar…leia o manual”. É exatamente isso que vou propor para que possamos finalmente entender que diabos é essa crise financeira internacional. Entendo que devemos consultar o manual, ou no caso o livro-texto de economia.

Embora muitos dos nossos comentaristas não abra um desde seu tempo de “calouro” de economia, geralmente as respostas estão todas lá, basta consultar.

Vou provar minha tese utilizando os princípios básicos de economia (que normalmente são ensinados no primeiro dia de aula) para explicar o furacão financeiro que estamos vivendo.

Pessoas enfrentam tradeoffs: “Não existe almoço grátis”. Para obter uma coisa que desejamos, em geral temos de abrir mão de outra coisa da qual gostamos. Tomar decisões exige comparar um objetivo com outro.
Quando as pessoas estão agrupadas em sociedade, elas se deparam com diferentes tipos de tradeoff. O tradeoff clássico é aquele entre “armas e manteiga”. Quanto mais for gasto em defesa nacional para proteger o país de agressores externos (armas), menos se pode gasta com bens pessoais para aumentar o padrão de vida (manteiga).

Lição para a crise: se você enfrentar o tradeoff entre refinanciar pela quarta vez a hipoteca de sua casa ou não trocar o seu SUV, escolha a segunda opção.

O custo de alguma coisa é do que você desiste para obtê-la: como as pessoas enfrentam tradeoffs, a tomada de decisões exige a comparação dos custos e benefícios dos vários cursos de ação. O custo de oportunidade de um item é aquilo de que se abre mão para obter aquele item. Ao tomar qualquer decisão, como quando se trata de freqüentar uma universidade, os que tomam qualquer decisão deveriam estar atentos aos custos de oportunidade que acompanham cada ação possível.

Lição para a crise: o custo de oportunidade para aprovar o milésimo empréstimo subprime muito provavelmente será a falência de seu banco.

Pessoas racionais pensam na margem: as decisões que tomamos na vida são raramente em preto e branco, em geral têm tons de cinza. Quando é hora de jantar, a decisão não é jejuar ou se entupir de comida, mas a de pegar mais uma colher de sopa. Quando as provas se aproximam, a decisão não é de jogá-las para o alto ou estudar 24 horas por dia, mas entre gastar mais uma hora revendo a matéria ou assistir televisão. Os economistas empregam a expressão alterações marginais para descrever pequenos ajustes incrementais a um plano de ação incremental. “Margem” também significar “beirada”, de modo que alterações marginais são ajustamentos na beirada daquilo que você está fazendo.

O princípio marginal nos permite tomar melhores decisões; podemos usá-lo para determinar se o aumento de uma unidade em uma variável nos deixará ou não em melhores condições. Por exemplo: um barbeiro poderia decidir se deve manter sua barbearia aberta por mai 1 hora. Você poderia decidir se deve estudar 1 hora para a prova de economia.

O princípio marginal se baseia na comparação de benefícios e custos marginais de uma determinada atividade. O benefício marginal de alguma atividade é o benefício adicional resultante de um pequeno aumento na atividade, como por exemplo, a receita adicional gerada quando uma barbearia fica aberta por mais 1 hora. De modo semelhante, o custo marginal é o custo adicional resultante de um pequeno aumento na atividade, como, por exemplo, os custos adicionais incorridos quando se mantém uma loja aberta por mais 1 hora. De acordo com o princípio marginal, você deve aumentar o nível de atividade enquanto o benefício marginal for maior que o custo marginal. Ao atingir o nível em que o benefício marginal é igual ao custo marginal, seu aprimoramento está realizado.

Lição para a crise: se você acha que benefício marginal de adquirir mais uma cota do fundo administrado pela empresa do Maddof é maior que o custo marginal, pense de novo.

Pessoas respondem a incentivos: como as pessoas tomam decisões comparando custos e benefícios, seu comportamento pode mudar quando os custos ou benefícios se alteram. Isto é, as pessoas respondem a incentivos. Quando o preço das maçãs aumenta, por exemplo, as pessoas decidem comer mais peras e menos maçãs, porque o custo de comprar maçãs está maior. Ao mesmo tempo, os produtores de maçãs decidem contratar mais gente e colher mais maçãs, porque o benefício de vender maçã também é maior.

Lição para a crise: se você trabalha numa grande banco americano que concedeu bônus milionários para seus executivos como incentivo para que eles tomassem decisões mais arriscadas, acho que você provavelmente já está desempregado.

O comércio pode melhorar a situação de todos: quando um membro de sua família procura emprego, concorre com membros de outras famílias que também estão em busca de emprego. As famílias concorrem umas com as outras quando vão às compras, por que cada uma das famílias quer comprar os melhores produtos pelo menor preço. Assim, em certo sentido, cada família em uma economia compete com todas as outras famílias.

Apesar desta competição, sua família não estaria em melhor situação se se isolasse das outras famílias. Se o fizesse, teria de produzir seus alimentos, confeccionar suas roupas, construir sua própria casa. Evidentemente, sua família ganha muito com a possibilidade de poder comerciar com outros. O comércio permite que cada pessoa se especialize nas atividades em que é mais apta, seja na agricultura, na confecção de roupas ou na construção. Comerciando com outras, as pessoas podem compara uma maior variedade de bens e serviços a um custo menor.

Lição para a crise: quando você ouvir o Obama anunciar mais algum pacote de incentivos para a indústria americana como o Buy american products, pode começar a ficar preocupado.

Os mercados são, em geral, uma boa forma de organizar a atividade econômica: em seu livro de 1776, o economista Adam Smith fez a mais famosa observação de toda a teoria econômica. As famílias e as empresas, ao interagirem nos mercados, agem como que guiadas por uma “mão invisível” que as conduz a resultados de mercado desejáveis. Na verdade, são os preços que permitem a “mão invisível” dirigir a atividade econômica. Os preços refletem tanto o valor que a sociedade atribui a um bem quanto os custos em que ela incorre para produzi-lo. Como as famílias e as empresas levam os preços em consideração ao tomar suas decisões, elas, sem saber, estão levando em conta os benefícios e custos de suas ações. Em decorrência, os preços encaminham esses tomadores de decisões individuais para resultados que, muitas vezes, maximizam o bem-estar da sociedade como um todo.

Lição para a crise: da próxima vez que você ouvir falar em deflação não fique todo animado. Sempre que ocorre queda generalizada nos preços a economia fica sem saber para onde ir.

Os governos podem às vezes melhorar os resultados do mercado: a mão invisível orienta os mercados para uma alocação eficiente dos recursos. Contudo, por várias razões, a mão invisível às vezes não funciona. Os economistas usam a expressão falha de mercado para referir-se à situação em que o mercado por si só não consegue alocar recursos eficientemente.

Uma das possíveis causas de falhas de mercado são as externalidades. Uma externalidade é o impacto das ações de alguém sobre o bem-estar dos que estão em torno. A poluição é um exemplo clássico. Se uma fábrica de produtos químicos não paga todo o custo da fumaça que emite, ela tenderá a emitir demais. Neste caso, o governo pode aumentar o bem-estar geral através de uma regulamentação ambiental. O exemplo clássico de uma externalidade benéfica é a criação de conhecimento, quando um cientista faz uma descoberta importante, ele produz um recurso valioso que pode ser utilizado por outras pessoas. Neste caso, o governo pode aumentar o bem-estar econômico ao subsidiar a pesquisa básica, como de fato faz.

Lição para a crise: ok, aqui não vou fazer nenhuma piada. O negócio é segurar na mão do Obama e rezar. Mas se você está confiando no marido da Carla Bruni, no autor da frase que a crise era só uma “marolinha” ou no coitado do Gordon Brown, entre na procissão e reze também.

O padrão de vida de um país depende de sua capacidade de produzir bens e serviços: quase toda a variação nos padrões de vida pode ser atribuída a diferenças na produtividade – isto é, a quantidade de bens e serviços produzida em uma hora de trabalho. Nos países onde os trabalhadores podem produzir grande quantidade de bens e serviços por unidade de tempo, a maior parte das pessoas tem um alto padrão de vida; nos países onde os trabalhadores são menos produtivos, a maior parte das pessoas vive com menor conforto.

Lição para a crise: se até o país com a mais alta produtividade do mundo teve que montar um pacote de salvamento para sua indústria automobilística a coisa deve estar feia mesmo.

Bibliografia:
Mankiw, N. Gregory. Introdução à economia: princípios de micro e macroeconomia/N. Gregori Mankiw; tradução de Maria José Cyhlar Monteiro. Rio de Janeiro: Elsevier, 2001.

Mendes, Judas Tadeu Grassi. Economia: fundamentos e aplicações. São Paulo: Prentice Hall, 2004.

O´Sullivan, Arthur. Introdução à economia: princípios e ferramentas/ Arthur O´Sullivan, Steve, Sheffrin; tradução de Maria Lúcia G. L. Rosa. São Paulo: Prentice Hall, 2004.

Viva melhor com menos

No início do século XIX, quando a economia dos Estados Unidos ainda engatinhava em direção ao que viria a ser a maior nação capitalista do planeta, o escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862) já questionava o consumismo desenfreado que tomara conta de seus conterrâneos.

No início do século XIX, quando a economia dos Estados Unidos ainda engatinhava em direção ao que viria a ser a maior nação capitalista do planeta, o escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862) já questionava o consumismo desenfreado que tomara conta de seus conterrâneos.

Desiludido com os rumos da “terra das oportunidades”, Thoreau trocou a vida na cidade por uma experiência de dois anos na Floresta de Walden, em Massachusetts. Em plena expansão da economia capitalista, ele buscava a simplicidade de viver em harmonia com a natureza. Nascia ali uma das primeiras vozes modernas a pregar a frugalidade. “Um homem é rico na proporção do número de coisas das quais pode prescindir”, escreveu Thoreau no livro Walden, a vida nos bosques, obra em que ele relata seu período como eremita.

Quase 150 anos depois, o despojamento perseguido por Thoreau parece enfim estar na moda – inclusive no Brasil. Ele é motivado, em parte, pela crise financeira mundial. A atual escassez de crédito pode encerrar o ciclo de esbanjamento dos últimos anos e dar início a uma nova era de austeridade. Antes do estouro da bolha forçar um basta à extravagância, porém, outros filósofos do cotidiano se propunham a recuperar e atualizar teorias parecidas com as de Thoreau – e também com as de clássicos como os gregos Aristófanes e Epicuro. São ideias que propõem uma revisão radical das escolhas e dos hábitos de consumo. No lugar da gastança, o comedimento.

Epicuro de Samos (341 a.C.-270 a.C.) foi o filósofo que propôs uma vida de prazer como chave para a felicidade. Mas o prazer de Epicuro não é o dos excessos, como no hedonismo. O prazer a que ele se refere é espiritual, algo que se relaciona ao passado e se desdobra no futuro. O prazer imediato, na outra ponta, está associado ao materialismo e ao consumismo e, segundo ele, deveria ser evitado.

Epicuro dividiu os desejos em categorias.

A primeira é composta dos “naturais e necessários” como a nutrição, o sono e a reprodução. Também entram nessa categoria o desejo de se proteger e o de ser feliz.

Os desejos “frívolos”, segundo Epicuro, seriam os não naturais e não necessários, como a ambição, a riqueza e a glória. A imortalidade ocuparia uma categoria particular, por ser um desejo irrealizável.

Segundo Epicuro, o sábio satisfaz apenas aos desejos necessários, que exigem muito pouco. Para alcançar a liberdade e a paz como bens supremos, o indivíduo teria de renunciar a todos os desejos possíveis e vigiar-se contra as surpresas irracionais do sentimento, da emoção e da paixão.

O objetivo é ter o corpo são, satisfazendo às necessidades básicas, e a mente sadia, para viver tranquilo e não ter o espírito perturbado. “O desejo é inimigo do sossego”, dizia Epicuro. Para ele, a sociedade deveria aprender a usar objetos que criava, sem que eles a escravizassem.

A mesma lição já havia sido ensinada por Aristófanes cerca de 500 anos antes de Cristo. Ele observou que os cidadãos atenienses se endividavam por não conseguir conter o desejo de consumir tecidos, joias e outros itens importados. A crise ética da Grécia democrática foi representada na peça As vespas, uma sátira sobre a má gestão do dinheiro público. Os cidadãos passaram a inventar processos nos tribunais para justificar o ganha-pão.  Consumiam cada vez mais, embora a produção não avançasse no mesmo ritmo”, dizia Aristófanes. A alavancagem grega levou à Guerra do Peloponeso – entre 431 a.C. e 421 a.C. – e a um vazio de valores. 

Descartar o supérfluo, é um dos mandamentos da nova frugalidade. Ele está ligado, como tantos outros, ao conceito de simplicidade voluntária, que define a tentativa de viver com mais tempo e menos necessidades. Esse conceito constitui um dos pilares da ideologia do novo milênio e tem sido muito útil quando se trata de lidar com os efeitos mais ásperos da crise econômica, sobretudo nos Estados Unidos.

Uma pesquisa da Booz & Company feita com mil consumidores nos EUA mostra que o orçamento apertado obriga a rever as escolhas de consumo. Segundo o estudo, caso a crise na economia se agrave – cenário inevitável nos próximos seis meses para dois terços dos entrevistados –, o aperto nas despesas começaria com cortes nos jantares fora de casa. Supondo uma diminuição de 10% na renda, 62% dos entrevistados disseram que deixariam de ir a restaurantes caros. Os cafés para gourmets, como os da rede Starbucks, um dos símbolos da nova economia global, seriam descartados por 35% dos entrevistados. Os bares perderiam 32% do movimento. Quase metade dos americanos que responderam à pesquisa reduziria as despesas com entretenimento, o que inclui concertos, jogos e exposições.

Além dos cortes pontuais, a pesquisa da Booz & Company revela uma mudança de valores. Entre as permutas que os consumidores se dizem dispostos a fazer está a troca de carros luxuosos que gastam muito combustível, como os SUVs, por carros menores, menos poluentes – e, se possível, híbridos, com propulsores a energia elétrica. Um em cada quatro entrevistados afirma que pretende adiar a compra do carro novo – enquanto 15% dizem estar trocando o carro que já têm na garagem por um modelo mais barato.

A gratificação emocional não tem nada a ver com o consumo de itens de luxo. Pelo contrário. Depois de seis anos de crescimento ininterrupto, esse mercado finalmente dá sinais de que entrará em recessão em 2009. Uma pesquisa da consultoria americana Bain & Company divulgada em novembro previa um crescimento de apenas 3% para o mercado de luxo em 2008. O número mostra a fragilidade de um setor antes considerado imune aos solavancos da economia – e às variações no humor de consumidores. Enquanto o mundo se deslumbrou com a opulência dos últimos cinco anos, o mercado de luxo cresceu a uma média de 10%. Diante do brilho perdido de joias, roupas e carros caros, o consumidor de bolso vazio passou a não ter opção exceto pensar racionalmente no destino de seu dinheiro. Apartamentos vendidos a exorbitantes US$ 150 milhões, no exclusivíssimo 15 Central Park West, em Nova York, um condomínio inspirado nas luxuosas construções da cidade na década de 1920, podem ter virado miragem depois que as Bolsas de Valores de todo o mundo esfacelaram fortunas.

No lugar das moradias opulentas, com aposentos até para os motoristas particulares, entra em cena uma nova tendência: o movimento “small house” (casa pequena, em inglês). Há cinco anos, quando o mercado imobiliário americano estava aquecido, a ideia de morar numa casa apertada não passava nem pela cabeça dos menos abastados. Com longos prazos de financiamento e juros baratos, os americanos povoavam os subúrbios com casarões cada vez maiores. A casa média americana cresceu 40% de tamanho entre 1982 e 2004, segundo o U.S. Census Bureau. O tamanho da moradia para uma família passou de 160 metros quadrados para 220 metros quadrados. Como um americano seria capaz de viver num espaço do tamanho de um quarto?

O conceito de moradia simples e descomplicada, no entanto, ganhou adeptos. O estouro da bolha imobiliária americana deu sentido a uma ideia que só fazia sentido a quem não tinha acesso ao farto crédito imobiliário. Um grupo de ativistas lançou a Small House Society (Sociedade da Casa Pequena) para promover os benefícios ecológicos e econômicos das minimoradias. Os modelos têm preços médios de US$ 40 mil e tamanhos que variam de 6 a 15 metros quadrados.

A filosofia por trás do movimento “small house” pode ter origem no pensamento de Sêneca (4 a.C. a 65 d.C.). Ele era rico, mas não desfrutava o conforto que seu dinheiro podia pagar. Bebia apenas água e dormia sobre um colchão duro. “O sábio não está obrigado à pobreza, mas experimentar o inverso nos torna mais humanos”, dizia. Na infância, Sêneca foi enviado a Roma para estudar oratória e filosofia. Em pouco tempo, chegou ao Senado. Foi durante seu exílio na Grécia que escreveu seus principais tratados filosóficos, entre eles Consolos, em que fala dos ideais estoicos clássicos, da renúncia de bens materiais e busca da tranquilidade da alma, o que se consegue com conhecimento e contemplação. Algumas máximas de Sêneca parecem fazer mais sentido hoje do que quando ele as escreveu, no século I: “Pobre não é aquele que tem pouco, mas antes aquele que muito deseja”; “A utilidade mede a necessidade: e como avalias o supérfluo?”; “Nunca ninguém enriqueceu com dinheiro” ou “Nenhum bem sem um companheiro nos dá alegria”. Sêneca pode ter exagerado na forma como condenava as comodidades da civilização, mas, se bem interpretado, seu alerta contra a ostentação e o desperdício poderia ter evitado dores de cabeça a quem se deixou levar pela ganância.

Ainda que a crise financeira atual não exija privações como as propugnadas por Sêneca, seus efeitos podem ser pedagógicos. A sociedade moderna está saindo gradualmente de uma era de exageros, do consumismo desenfreado para um tempo de mais reflexão, de menos opulência.

Em tempos de crise teremos que aprender a “fazer mais com menos” e realmente encontrar a felicidade nas “pequenas coisas”.

Bibliografia:
Revista Época, edição 555 de 29 de dezembro de 2008

A “desglobalização” está chegando

Em tempos de crise os agentes econômicos parecem seguir uma espécie de cartilha que coordena cada uma de suas ações, a saber:

– negação: a primeira reação é negar o que está acontecendo. Um dos exemplos mais brilhantes, foi quando o presidente Lula disse que a atual crise chegaria ao Brasil apenas como uma “marolinha”;

– raiva: aí começa a busca por culpados. Um exemplo interessante foi quando na semana passada oito executivos-chefes dos maiores bancos americanos foram chamados a depor na Câmara dos Representantes para justiricar o uso dos US$ 165 bilhões que receberam do governo no ano passado. Um deputado democrata lhes disse: “Os Estados Unidos não confiam mais em vocês. Eu não tenho mais nenhum centavo nos bancos”.

– negociação: os agentes passam a fazer reuniões para tentar achar alguma saída, reunião do G-20, Davos, e por aí vai.

– depressão: como sabemos depois da recessão, vem a depressão. Não se tem notícia ainda de seu aparecimento, mas ela está no horizonte de alguns países europeus mais afetados, como a Islândia por exemplo.

– aceitação: a crise já é realidade, temos que conviver com ela. Esta é a fase mais perturbadora, pois depois que aceitamos uma crise que foi gerada no exterior, a primeira coisa que os agentes propõem é o “fechamento das fronteiras”.

E é isso que está acontecendo.

Estamos começando a viver um perigoso estado de “desglobalização”. O que parecia ser um consenso quase que universalmente aceito – as vantagens do livre-comércio e da crescente integração entre os países – começa a ser debatido num tom perigosamente emocional. Conceitos tidos como em completa obsolescência no mundo globalizado como nacionalismo, xenofobia e protecionismo, ameaçam se reerguer e colocar em xeque o mundo como o conhecemos hoje.

Medidas claras de protecionismo vem sendo tomadas numa velocidade espetacular ao redor do mundo:

– a Ucrânia aprovou um aumento na taxa de importação para carnes de 12% para 120%, violando acordos da OMC;

– a Indonésia subiu as alíquotas de 500 produtos e estabeleceu registro de licença de importação, que complica a entrada de produtos estrangeiros;

– a Índia aumentou em 20% a taxa sobre o óleo de soja;

– O Mercosul também passou a examinar alta tarifária, mas no limite de 35% permitido pela OMC;

– a Rússia já anunciou a intenção de subir a tarifa de importação de automóveis para 35% e quer aumentar a ajuda a seus produtores de carnes o que freará exportações do Brasil;

– europeus e americanos têm delineado programas de subsídios nas áreas autormotiva, têxtil e siderúrgica.

Desta forma, o fluxo do comércio já caiu nos principais mercados mundiais, afetando diretamente o Brasil. Com a demanda e preços internacionais menores, as exportações do agronegócios devem recuar US$ 20 bilhões, pela projeção de alguns especialistas, o que seria a primeira queda após dez anos de alta. Até o dia 14 de fevereiro, a balança comercial brasileira registrava um déficit de US$ 12 milhões.Segundo analistas do Banco Central, o saldo comercial deverá atingir US$ 14,5 bilhões em 2009, marcando o terceiro ano consecutivo de queda. O principal fator é a expectativa de que o Brasil registre uma diminuição de 17,6% nas exportações, causada pelo fechamento de portas nos grandes países compradores.

Uma das medidas que mais chamou atenção foi o anúncio pelo governo americano do Buy American Act. A proposta estipulava que todo aço comprado pelo governo americano com dinheiro do pacote de US$ 920 bilhões de Obama, deveria ser produzido nos Estados Unidos. Era um sinal claro de que os americanos começariam a erguer barreiras protecionistas. Em função das reações negativas ao redor do mundo, o Senado suavizou a medida na noite de 04 de fevereiro, ao estipular que as siderúrgicas americanas terão preferência, desde que isso não viole os acordos comerciais dos Estados Unidos.

Sem dúvida vivemos dias cinzentos.

Mas não é apenas o futuro que provoca inquietação. Também o passado traz sustos. Nas últimas semanas, a memória de uma dupla de políticos americanos tem sido constantemente invocada pelos defensores do livre-comércio como um exemplo dos riscos do protecionismo: Willis Hawley e Reed Smoot.

Em 1930, os dois foram responsáveis por uma lei que aumentou a tarifa de importação de 20 mil produtos a níveis recordes nos Estados Unidos. A retaliação veio rapidamente – e o resultado é que as exportações americanas caíram pela metade. O comércio internacinal murchou.

Para muitos estudiosos, o espetacular cerco às importações amercianos, assinado pela dupla Hawley e Smoot, deu uma contribuição milionário para a depressão econômica muindial dos anos 30 -que, entre outros efeitos facilitou a ascenção de Adolf Hitler na Alemanha. Os acordos que vigoram hoje protegem o mundo de ações como a de Hawley e Smoot, segundo especialistas em comércio exterior. Mas, não obstante a suposta proteção legal contra a eclosão irrestrita de protecionismo em escala global, a dupla de políticos amerciana voltou a ser lembrada – com apreensão – depois de uma prolongada temporada de crescimento.

Atualmente vivemos num mundo de profunda interconexão, onde o anúncio de uma medida americana ou chinesa traz calafrios para todos os outros países. Se as porteiras começarem a se fechar veremos benefícios e avanços que colhemos nos úlitmos 30 anos serem completamente destruídos.

Sempre é bom lembrar que o pânico é um mau conselheiro.

Cabe aos líderes mundiais acabarem com a visão reinante de apocalipse, pois caso contrário nos próximos anos talvez vejamos o início de um regime totalitário e militarista em algum país europeu. E a história nos mostra que isso não acaba bem.

Bibliografia:
Revista Época, edição 560 de 9 de fevereiro de 2009
Revista Isto É Dinheiro, edição 589 de 21 de janeiro de 2009
Revista Isto é Dinheiro, edição 592 de 11 de fevereiro de 2009
Revista da Semana, edição 75 de 19 de fevereiro de 2009