Calendários no Project 2007

Artigo descrevendo o uso de calendários no MS-Project 2007. Descreve Calendário-base, calendário do projeto, da tarefa e do recurso.

Um dos recursos mais poderosos do Project é o uso de calendários. Eles permitem uma enorme flexibilidade no uso da ferramenta, mas também causam uma grande confusão quando estão mal configurados ou não são entendidos.

Para um bom gerenciamento de projetos, precisamos sempre considerar que os recursos tem férias, feriados, compromissos em dias diferentes, e precisamos entender como fazer o planejamento considerando estas características.

No MS Project 2007, os calendários são dividos em 4 tipos: calendário-base, calendário do Projeto, calendário do recurso e calendário da tarefa. Vamos entender cada um deles:

Calendário-base: É o calendário que possui um nome e que pode ser atribuído a um recurso, tarefa ou projeto. Um calendário-base é o único tipo de calendário que pode ser movido entre diversos arquivos, ou ser salvo no seu global.mpt. Quando recém instalado, o Project 2007 conta com 3 calendários-base: “normal”, “turno da noite” e “24 horas”.  Nada impede, porém, que você crie seus próprios calendários-base e use de acordo com suas necessidades.

Como eu faço para criar e alterar calendários-base?

Vá no menu Ferramentas -> “Alterar período útil”.  No campo superior, à esquerda, você pode selecionar qualquer calendário-base para editar.  E também na parte superior, à direita, existe um botão para criar novos calendários.

Calendário do projeto 

Você pode selecionar um calendário-base como o calendário do projeto. Este calendário será utilizado como padrão para as novas tarefas e recursos que forem incluídos no projeto. Você pode selecionar apenas um calendário-base como sendo o calendário do projeto.

Como alterar o calendário do projeto?

A seleção do calendário do projeto está no menu Projeto -> “Informações sobre o Projeto”.  Entre os calendários-base, selecione o que será mais utilizado neste projeto.

Calendários dos Recursos

Cada recurso tem seu próprio calendário. É interessante notar que, cada vez que criamos um recurso, também criamos um novo calendário no projeto. Este novo calendário, porém, não estará disponível no “organizador”. Por isso, não poderemos copiá-lo, movê-lo ou excluí-lo.No entanto, este calendário de recurso é o local correto de registrarmos férias de um determinado recurso pois ele só terá efeito sobre o recurso que leva o seu nome.

Com isso, podemos informar ao Project que José entrou de férias, mas isso não implica na paralização de todo o projeto. As tarefas que dependem de José ficarão paradas neste período. 

Os calendários de recursos são baseados em calendário-base. Existem diversas formas de se alterar o calendário-base de um recurso, sendo a mais fácil inserir a coluna “Calendário” na planilha de recursos.Com isso, é bastante simples alterarmos o calendário em que aquele recurso é baseado.

Calendários das Tarefas

Assim como cada recurso tem seu calendário, cada tarefa também pode ter um calendário diferente do calendário do projeto. Mas uma tarefa não pode ter seu calendário editado, permitindo apenas o uso de calendários-base.  Já pensou a confusão de gerenciar 1000 calendários diferentes (é bastante rápido chegarmos a 1000 linhas em um projeto)? Para selecionar o calendário da tarefa, insira a coluna “Calendário” nas tabelas do gráfico de Gantt. 

Tá legal… acho que entendi. Mas como assim? E quando os calendários do recurso e de tarefa divergem?

O project entende que todo o trabalho deve ser feito quando ambos os calendários permitirem. Ou seja, se houver folga em qualquer um dos calendários – tanto da tarefa quanto do recurso – o trabalho não será executado naquele dia. E quando não existem tempos comuns entre os calendários, o software exibe um erro.

Por isso, existe uma opção extra – a da tarefa ignorar o calendário dos recursos. Com isso, cada tarefa pode seguir um ritmo imposto apenas pelo seu próprio calendário, sem a preocupação com feriados de um ou outro recurso.

Com o entendimento destes tópicos, o uso do Project pode ser facilitado em muito, além de munir os gerentes de projetos com armas muito mais eficientes no gerenciamento do tempo de projetos. Todos devemos “brincar” com os calendários, para testar e compreender profudamente as reações do software em tarefas de múltiplos recursos, calendários não-padrão, e outros comportamentos. Só assim podemos extrair o real valor das ferramentas que temos à disposição.

Guilherme Silva, PMP

Poluição, Segurança no transito, IPVA e… Contratos

Artigo sobre uso de incentivos em contratos para o atigimento de objetivos maiores, usando os impostos como exemplo.

Carros - Retirado do Flickr (Freeparking)
Carros - Retirado do Flickr (Freeparking)

Já se passaram 3 meses desde a publicação do meu artigo sobre o uso de contratos (http://www.gerenciamentoeconomico.com.br/ferramentas-de-gerenciamento/administracao_tipos_de_contratos/), que trazia uma idéia inicial de desenho de contratos, e como deveríamos fazer para que eles trouxessem incentivos ao atingimento de nossos objetivos.

Desta vez, como continuição do primeiro artigo, trago um exemplo prático de como um governo pode ter efeito na população sem que isto impacte nas suas receitas. Quero expor como um governo pode atingir alguns objetivos que entendo desejáveis, alterando as “regras do jogo”, ou seja, as leis. As leis são contratos  celebrados com a União, independemente dos que os juristam digam. Para que este seja um exemplo paupável, quero exemplificar uma mudança que poderia ser forte o suficiente para mudar o nosso trânsito. Os nosso problema do trânsito é bem contraditório:

  • O trânsito mata. Queremos um trânsito seguro, com carros modernos e equipados com os melhores dispositivos de proteção aos usuários – motorista, passageiros e também pedestres.
  •  Os carros poluem. Não desejamos que o transporte cause poluição e danos ao nosso planeta.
  • Queremos fazer carros! Isto se deve à longa cadeia produtiva de um carro. Queremos empregos para a nossa economia, e para isso, precisamos também construir bastante carros.
  • Precisamos andar nos carros. Em SP, isso já é um desafio. Em outras cidades, isso rapidamente está se tornando um grande problema urbano. Se fizermos muitos carros, teremos problemas…

Quase chegando lá… Imaginem cada aspecto que queremos incentivar e desencorajar com nossa nova lei. Imaginem que temos uma única regra que podemos reescrever: O sistema de cálculo do valor do IPVA. Imaginemos que estivéssemos livres para mudar este imposto, para a forma que mais ajudasse a resolver os problemas colocados. Qual seria a solução racional para este problema? 

Uma alternativa: Criar impostos progressivos com os itens que não desejamos. Quer um carro sem ABS, que pode salvar a sua vida e de pedestres? Ele vai ser mais barato hoje, mas você pagará mais impostos pelos próximos anos. Quer um grande SUV que faça 4 km/l? Você pagará muito IPVA todos os anos para ter este direito. Você quer um carro velho? Bom, provavelmente em algum momento o seu carro valerá menos que o imposto que ele deverá pagar, ou seja, incentivamos os carros velhos – quando são poluidores e inseguros – a serem descartados. Com isso, até podemos garantir certo controle sobre o tamanho da frota, e garantimos a desejável renovação. Pensando nos problemas dos congestionamentos, este mesmo imposto pode ser usado para fazer com que os carros transportem mais passageiros na mesma área. Ou ocupem menos espaço na rua. Para isso, poderia-se taxar o tamanho do carro (em m²), ou outro aspecto que os engenheiros de tráfego julguem importante.

O lado bom desta mentalidade é que tudo pode ser incentivado ou não. O percentual de peças produzidas em solo brasileiro poderia ser um índice, estimulando a produção de peças e do próprio carro em solo brasileiro. Não seria necessário um imposto de importação tão alto, e teríamos o mesmo efeito na frota. E isso tudo, não necessariamente implica em aumento ou perda de receitas, apenas em uma redistribuição de quem deve pagar esta conta.

É claro que este tipo de pensamento é, e sempre será, impopular. Cobrar mais dos que tem carros mais econômicos, ou mais velhos, é sobretaxar a população mais pobre. Não podemos ser ignorantes a ponto de não perceber isto, mas o imposto atual, calculado em um percentual sobre o valor do carro, é, do ponto de vista de estímulos, inaceitável. Queremos que nossos carros sejam os menos valiosos possível? Que o carro popular impere?

 Sempre haverá espaço para melhorias nos incentivos pensando claramente o que queremos do nosso futuro. E nosso foco, ao criar contratos, deveria estar nos nossos objetivos. Pena que o culto ao Robin Hood dos nossos formuladores de políticas nos impeça de ver o que deveria ser óbvio.

Seleção Adversa no Mercado de Crédito

No mercado de crédito assumimos que, no início do relacionamento, os devedores não são iguais e ainda detém mais informação que os credores. De fato os diferentes tipos de devedores têm diferentes probabilidades de pagar seus empréstimos.

Segundo Mishkin (2000) o problema de seleção adversa acontece antes da transação ocorrer: tomadores com risco de crédito elevados são os que mais ativamente buscam por empréstimos. Portanto, as partes contratantes que mais provavelmente produzirão um resultado indesejável são também as que mais provavelmente se sentiram dispostas a participar da transação. Na medida em que a seleção adversa aumenta a probabilidade de um empréstimo ser concedido a um mau devedor, as instituições podem decidir não conceder empréstimo algum, ou conceder empréstimos a juros mais altos, mesmo havendo bons riscos de crédito no mercado.

Conforme Bebczuk (2000) a seleção adversa no mercado de crédito ocorre quando o credor não é capaz de distinguir entre projetos com diferentes níveis de risco no momento de formatar o contrato de empréstimo. Depois de assinado o contrato, o credor prefere projetos menos arriscados, enquanto o devedor prefere o contrário. Neste contexto os empresários detentores de projetos arriscados acham conveniente ocultar a verdadeira natureza do projeto, explorando a desinformação relativa do credor.

Para Cosci (1993) uma importante diferença entre os devedores são os seus diferentes graus de otimismo e pessimismo. Cosci considera que devedores otimistas irão superestimar sua própria probabilidade de sucesso, o que os fará aceitarem taxas de juros mais altas do que as aceitadas pelos do tipo pessimista. Quando a taxa de juros aumenta é provável que apenas devedores otimistas aceitem permanecer no mercado o que em última instância pode significar aumento do risco para os bancos, pois ficarão no mercado somente os indivíduos com propostas de elevado risco de crédito.

Clemenz (1986) argumenta que os tomadores podem diferenciar no que diz respeito às suas habilidades. Um aumento na taxa de juros pode afastar os tomadores com altas habilidades de seus projetos, por exemplo, ao invés de abrir sua própria empresa eles podem aceitar um emprego em uma empresa já formalmente constituída. Sendo neutro ao risco, o devedor prefere aceitar um empréstimo se, e somente se, o seu retorno esperado será maior que a taxa cobrada. Em função dos aumentos na taxa pode ser mais seguro aceitar um salário previamente combinado do que se arriscar com um projeto próprio.

No modelo de Jaffe e Russel (1976) dois tipos de devedores são apresentados: os honestos e os desonestos. Podemos definir honestos como aqueles que aceitam somente baixas taxas de juros porque eles esperam poder quitar seus empréstimos no prazo combinado. O tipo contrário aceita pagar altas taxas de juros porque sabem que sua probabilidade de pagamento é muito baixa. Sendo assim simplesmente não se importam com o custo do empréstimo.

Stiglitz e Weiss (1981), utilizando os conceitos propostos por Jaffe e Russel, demonstraram em seu modelo que a qualidade dos empréstimos financiando pelos bancos pode depender da taxa de juros praticada. Especificamente, a probabilidade média de pagamento é assumida para ser a função de decréscimo da taxa de juros dos empréstimos, a taxa de juros que um banco cobra pode afetar a probabilidade de pagamento de um conjunto de empréstimos em função do efeito da seleção adversa (por exemplo, afetando os candidatos ao empréstimo) ou em função do efeito do incentivo adverso (afetando as ações do devedores).

Em se considerando os casos mencionados acima, podemos argumentar que no primeiro caso um acréscimo na taxa de juros pode desencorajar indivíduos honestos a tomarem empréstimos, permanecendo no mercado apenas devedores desonestos que não estão preocupados em pagar por seus empréstimos. 

Da mesma forma, um aumento na taxas de juros pode produzir um efeito de incentivo adverso induzindo empreendedores a escolher os projetos mais arriscados e mais lucrativos (quando bem sucedidos). Neste caso o devedor é indiferente entre dois ou mais projetos com diferentes probabilidades de sucesso.

Para Clemenz (1986) todos os devedores são idênticos, o que difere é que a probabilidade de sucesso dos projetos dependendo do nível de esforço aplicado pelo devedor que de fato não é diretamente observável pelo banco. Um aumento de esforço implica num aumento da probabilidade de sucesso do projeto. Clemenz argumenta que o esforço pode ser uma função inversa a taxa de juros: um aumento na taxa pode significar diminuição na expectativa marginal de retorno do devedor o que pode incentivá-lo a diminuir o esforço aplicado no projeto.

Concluindo, a taxa de juros cobrada pelo banco afeta a qualidade dos empréstimos, e em particular ela afeta os riscos envolvidos nas operações a medida que implica no tipo de devedor que ela atrairá.

Uma caracterização especial do problema de seleção adversa e sobre a forma como ele interfere no funcionamento do mercado de crédito pode ser entendida através do “problema dos limões” já abordado num artigo anterior.  Se considerarmos maus riscos de crédito como “limões” e bons riscos como “pêssegos” e se a taxa de juros média cobrada no mercado não leva em consideração o grau de risco de crédito de cada devedor, desta forma haverá um incentivo para riscos de crédito do tipo “pêssegos” saírem do mercado por acharem que os custos dos empréstimos são altos demais para o risco apresentado por eles.

Como observamos os efeitos de seleção adversa no mercado de crédito são reais e podem efetivamente afetar o desenvolvimento do mercado de crédito a medida, que os bancos não conhecem previamente o tipo de devedor que está aceitando as taxas de juros cobradas por seus empréstimos.

Considerando os postulados da seleção adversa como válidos chegamos a conclusão que os bancos não dispõem antecipadamente de informações sobre o comportamento ou sobre a qualidade dos devedores e muito menos acerca de seus projetos. Desta forma, o mercado de crédito fica caracterizado pelas dificuldades envolvidas durante o processo de alocação dos recursos disponíveis entre os projetos apresentados.

Fica claro que sob seleção adversa o trabalho dos bancos é fundamental para garantir que somente os melhores projetos sejam aprovados, caso contrário o risco de perda dos recursos é muito grande o que pode implicar no mau funcionamento do mercado como um todo.

 

 

 

Bibliografia:

BEBCZUK, Ricardo N.. Información Asimétrica em Mercados Financeiros: Información y Aplicaciones. New York; Cambridge University Press, 2000.

 

CLEMENZ, G..Credit Markets with Asymmetric Information. New York: Verlag, 1986.

COSCI, Stefania. Credit Rationing and Asymmetric Information. Vermont: Dartmouth Publishing Company Limited, 1993.

 

JAFEE, Dwight e RUSSEL, Thomas. Imperfect Information, Uncertainty and Credit Rationing. Quaterly Journal of Economic v. 90, no 4, p. 651-66, nov. 1976.

 

MISHKIN, Frederic S. Moedas, Bancos e Mercados Financeiros. Rio de Janeiro: LTC, 2000.

 

STIGLITZ, Joseph E. e WEISS, Andrew. Credit Rating in Markets with Imperfect Information. American Economic Review, v. 71, p. 393-400, junho 1981.

 

Por Alexsandro Rebello Bonatto em 18 de dezembro de 2008.

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O Papel dos Bancos no Mercado de Crédito

Num mundo de concorrência e informação perfeitas não haveria razão para a existência de intermediários financeiros. Os indivíduos poderiam tomar suas poupanças e investi-las em projetos e em firmas com retornos que são ótimos dadas as preferências e os horizontes temporais dos indivíduos. Os mercados poderiam se especializar em comercializar contratos que trocariam fundos sujeitos a todas as contingências imagináveis. Tais mercados iriam prover uma diversificação eficiente dos riscos. Esta é a hipótese dos mercados eficientes, onde os preços refletem toda a informação disponível.
Para Becsi e Wang (1997) o ponto chave para explicar porque os intermediários existem é a introdução de imperfeições ou fricções no mercado. Isto significa relaxar os pressupostos de informação e competição perfeitas ou mercado sem fricção, e mostrar como os intermediários financeiros podem melhorar os resultados obtidos pelo mercado. Quando as condições iniciais são menos que perfeitas, as trocas econômicas são caras e se forem suficientemente caras podem nem ao mesmo ocorrer. Os intermediários financeiros, especialmente os bancos, tornam tais trocas possíveis, reduzindo ou minimizando o efeito das fricções no mercado, reduzindo os custos de transação.
Tanto os problemas de seleção adversa quanto os de risco moral têm importantes efeitos no mercado de crédito. A primeira implicação é fazer dos bancos o único Agente capaz de analisar os projetos disponíveis e decidir quem pode ou não receber os recursos. Segundo Boot (2000), a razão de ser dos bancos é exatamente mitigar os problemas de informação assimétrica. O que é interessante na abordagem colocada por Boot, é entender o banco não apenas como um intermediário comercial, e sim um produtor de informações que através do relacionamento com os devedores tem um papel fundamental para a eficiente alocação de recursos no mercado de crédito.
Conforme Cosci (1993) uma das principais conseqüências da informação assimétrica é que os problemas de seleção adversa e risco moral justificam a existência dos bancos, como intermediários financeiros. A presença de seleção adversa pode induzir que certas instituições se especializem em adquirir informação sobre o risco dos projetos que buscam recursos no mercado de crédito. Tal situação possibilita ao credor distinguir mais facilmente entre bons e maus riscos de crédito, reduzindo de certa forma o grau de assimetria de informação presente no mercado. Os bancos têm uma importante vantagem em adquirir informações porque eles gerenciam as contas correntes das firmas e, portanto, possuem informações que não estão indisponíveis para os outros Agentes do mercado. A presença de risco moral também induz que certas instituições se especializem na atividade de monitoramento. O banco tem uma grande vantagem em coletar informações sobre o resultado dos projetos de investimento financiados, já que ele tem condições de acompanhar o desenvolvimento das firmas através do relacionamento bancário.
Para Spence (1974), o banco ao emprestar, compra uma fonte de recursos no futuro com dinheiro hoje, enquanto o devedor compra dinheiro hoje com sua capacidade ou disposição de devolver o recurso no futuro. É como se o banco comprasse um bilhete de loteria, já que ele não pode observar diretamente a capacidade de indivíduo em devolver o recurso emprestado. A decisão de emprestar ou não o recurso se embasará na quantidade de informações reunida pelo banco sobre as reais condições de pagamento daquele devedor.
Considerando os problemas de assimetria de informação presentes nos mercados financeiros e a existência de custos associados ao contrato direto entre os Agentes superavitários e os deficitários, estes se constituem em importantes justificativas ao papel dos bancos como principais atores na atividade de intermediação financeira. Na verdade segundo Thakor (1996) a existência de informação assimétrica fornece a principal explicação para a existência de intermediários financeiros na economia. O acesso a informação é inerentemente ligado ao relacionamento bancário, conferindo inúmeras vantagens aos bancos para efetuarem operações de crédito.
De uma maneira geral, os intermediários econômicos podem ser considerados Agentes que compram bens ou serviços para a revenda ou simplesmente ajudam compradores e vendedores (ou indivíduos superavitários e deficitários no caso da intermediação financeira) a encontrarem-se e realizarem transações. Se, entretanto, consideramos a hipótese acerca da existência de assimetria de informação nas transações, podemos encontrar o que se pode denominar de um microfundamento para a existência do processo de intermediação nos mercados.
Em boa parte das transações econômicas, os indivíduos envolvidos possuem informação assimétrica. Numa transação de compra e venda de um determinado bem, por exemplo, os vendedores não conhecem as características dos clientes potenciais; e estes, em muitas situações, não conhecem com certeza as características do produto a ser adquirido; um intermediário pode ajudar a resolver esses problemas coletando, processando e ofertando informações, reduzindo o custo agregado da transação como um todo. Trata-se enfim, de uma atividade que pode ser vista como uma forma de capturar ganhos com as transações considerando a existência de informação assimétrica entre os indivíduos.
Spence (1974) propõe uma discussão sobre o papel das agências de emprego no mercado de trabalho, que tem a função de selecionar os melhores candidatos para as empresas demandantes de empregados. Poderíamos adaptar o modelo proposto por Spence para o mercado de crédito, onde o banco tem a função de selecionar os melhores projetos de investimento para receber os recursos disponíveis captados junto aos aplicadores (Agentes superavitários).
Na verdade cabe aos bancos organizar o mercado que é formado pelos empreendedores que dispõem de projetos, mas não de recursos para realizá-los e os poupadores que disponibilizam os recursos que serão emprestados. A atividade bancária se notabiliza por aproximar os Agentes na busca pela melhor alocação dos recursos possível.
Os bancos possuem a vantagem de serem a única instituição preparada para separar entre os bons e mais projetos que demandam os recursos, através de sua capacidade de proceder a análise de crédito.
Em mercados caracterizados pela assimetria de informação torna-se indispensável a seleção entre projetos de maior e menor risco a fim de que possíveis perdas sejam evitadas, ou seja, um credor (bancos) com maior capacidade de reunir informações pode mais facilmente distinguir entre alto e baixo risco, aumentando assim sua utilidade esperada.
Na medida em que os bancos são capazes de identificar bons projetos, seus ganhos também crescem, implicando em mais investimento em produção de informação, que por sua vez implica em aumento da eficiência no processo de seleção entre os projetos.

Bibliografia:
BECSI, Zsolt e WANG, Piny. Financial Development and Growth. Federal Reserve Bank Atlanta Economic Review vol. 82 (4), 1997, p. 46-62.

BOOT, Arnoud W.A… Relationship Banking: What Do We Know? Journal of Financial Intermediation. vol. 9, p. 7-25, 2000.

COSCI, Stefania. Credit Rationing and Asymmetric Information. Vermont: Dartmouth Publishing Company Limited, 1993.

SPENCE, Michael. Market Signalling: Informational Transfer in Hiring and Related Screening Processes. London, England: Harvard University Press. 1974.

THAKOR, A.. Capital Requirement, Monetary Policy and Agregate Bank Lending: Theory and Empirical Evidence. Journal of Finance, v. 51, p. 279-324.1996.

Por Alexsandro Rebello Bonatto em 12 de dezembro de 2008.
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O problema do risco moral

A necessidade de salvamento de várias instituições financeiras pelos governos americanos e europeus trouxe de volta à discussão econômica um dos principais problemas apresentados pela teoria da informação assimétrica: o risco moral.

Com relação aos bancos o risco moral estaria presente na seguinte situação: como os banqueiros têm certeza que sempre serão salvos pelos governos de seus países, eles poderiam continuar arriscando o dinheiro dos correntistas em novas operações subprime, por exemplo.

A seguir apresentamos definições mais rebuscadas sobre o tema.

O problema de risco moral existe quando a ação do Agente não é verificável ou quando o Agente recebe informação privilegiada, após a relação econômica ter sido iniciada.

No problema de risco moral, os participantes têm a mesma informação quando a relação (transação econômica) é efetivada; o problema de informação assimétrica surge pelo fato de que depois do contrato assinado, o principal não consegue observar e/ou monitorar perfeitamente as ações/esforço do Agente.

A partir da não-observação do comportamento de um dos Agentes, pode haver o incentivo para tomada de decisões que não respeitam o que foi determinado no contrato. Desta forma, os arranjos efetuados via sinalização ou filtragem perdem sua efetividade, a medida que um dos agentes passa simplesmente ignorar as convenções estipuladas no contrato.

O que existe é um problema ex-post ao contrato assinado, assim como a seleção adversa é um problema ex-ante.

O termo risco moral foi originalmente utilizado no mercado de seguros para explicar o fato de que em tal mercado, quando uma empresa ou pessoas se encontram plenamente seguradas, mas não podem ser meticulosamente monitoradas pela companhia de seguros que por sua vez dispõe de informação limitada, seu comportamento poderá se alterar após o seguro ter sido adquirido. Isto quer dizer que o segurado pode se expor a maiores riscos, aumentado a probabilidade de pagamento por parte da seguradora.

O mesmo problema de risco moral enfrentado pelo mercado de seguros é observável em outras situações da economia, ou seja, ele sempre se manifestará quando um contrato tendo sido assinado, as partes não possuem condições de acompanhar o comportamento ou as ações tomadas pela outra parte.

Segundo Kreps (1994) o problema de risco moral ocorre quando uma parte de uma transação pode tomar certas ações que (i) afetem o resultado obtido pela segunda parte, mas que (ii) a segunda parte não pode monitorar ou controlar perfeitamente. O exemplo apresentado por Kreps é de seguro contra fogo, onde o segurado pode ou não se preocupar adequadamente com o risco de um incêndio. A solução seria a presença de incentivos, ou seja, estruturar transações onde a parte que toma as ações, em seu próprio interesse, agirá conforme o que a segunda parte preferiria.

Conforme Mishkin (2000) o custo de monitoração do comportamento dos agentes é muito elevado, o que em última instância poderia inviabilizar a transação.

Outra forma de risco moral é quando o agente detém informação privilegiada em relação ao principal. Encontramos, também, neste caso, diversos exemplos na economia. Podemos citar o mercado financeiro, no caso em que a presença de um emprestador de última instância ou de seguros de depósitos para bancos comerciais pode ocorrer problemas de risco moral, tanto por parte dos depositantes que não procurarão selecionar as instituições financeiras mais sólidas, quanto para as instituições financeiras que expandirão seus créditos sem preocupação quanto aos riscos assumidos nas operações. Situação perfeitamente aplicável à situação que se criou depois da falência do Lehmann Brothers, onde o Tesouro Americano foi obrigado a salvar várias instituições financeiras atingidas pelo subprime.

Em uma situação de economia em recessão, mesmo que o governo identifique a excessiva presença de créditos ruins nos balanços dos bancos, ele não sabe avaliar até que ponto isto é devido à desaceleração econômica ou má gerência dos administradores. Esta é uma situação identificada por Rasmusen (1992), como sendo o risco moral com informação oculta.

Um dos melhores exemplos da presença de risco moral se dá no mercado de trabalho, onde dificilmente o empregador consegue avaliar ou acompanhar o nível de esforço de seus empregados. O fato é que se o esforço não pode ser medido, ele não pode ser incluído nas cláusulas do contrato assinado entre as partes e dessa forma não pode ser exigido pelo empregador.

Rasmusen (1992) também considera o mercado de trabalho com as seguintes definições: se o empregador conhece a habilidade do empregado mas não seu nível de esforço, o problema é de risco moral com ação oculta, se nenhum dos dois conhece a habilidade do trabalhador no início do relacionamento, mas o trabalhador descobre sua capacidade tão logo comece a trabalhar, o problema é de risco moral com conhecimento escondido. Se o trabalhador conhece sua capacidade desde o início, mas o empregador não, o problema é de seleção adversa. Se o trabalhador adquire suas referências em resposta ao salário oferecido pelo empregador, então o problema é de filtragem (“screening”).

A presença de risco moral leva a uma situação paradoxal para o mercado. No exemplo do mercado de seguros o consumidor desejaria cada vez mais seguros e as empresas seguradoras estariam dispostas a vender mais, desde que o consumidor continuasse a tomar a mesma quantidade de cuidado. Porém, este equilíbrio não acontecerá, pois, se o consumidor for capaz de adquirir mais seguro, ele racionalmente escolheria tomar menos cuidado. Portanto, as empresas de seguros restringirão a quantidade ofertada, pois não conseguem, efetivamente, monitorar o comportamento do assegurado. Fazendo isto, a seguradora mantém parte do risco com o consumidor.

Arrow (1963) considerou a questão do risco moral para o mercado de seguros nas seguintes bases: se os indivíduos estão segurados contra riscos, eles não têm incentivos a agir evitando o risco. Se a informação fosse perfeita, então a apólice de seguro iria estipular as ações que poderiam ser realizadas, e então não haveria problema de incentivos. Mas as ações são na melhor das hipóteses, imperfeitamente observadas, o que leva o indivíduo detentor de um seguro de automóvel a dirigir de forma mais arriscada do que o indivíduo que não possui tal seguro.

Ainda sobre o mercado de seguros, Stiglitz (1985) afirma que a provisão dada pelo seguro afeta a extensão de cuidado que os indivíduos vão tomar para evitar os sinistros, uma vez que a companhia de seguros não pode monitorar as ações dos indivíduos. Uma solução seria a aplicação de incentivos para que os indivíduos evitassem correr riscos, como descontos oferecidos na renovação do seguro por exemplo.

Portanto, sempre que houver a presença de risco moral haverá perda de eficiência, favorecendo que uma das partes da transação assuma comportamentos que prejudiquem a outra parte. Ou seja, a decisão de salvar ou não uma instituição financeira da bancarrota sempre alterará o comportamento das demais instituições. Sendo assim, preservar bancos nem sempre implica num mercado financeiro mais saudável como querem as autoridades americanas e européias.

Bibliografia:
ARROW, K.J.. Uncertainty and the Welfare Economics of Medical Care. American Economics Review. v. 53, 1963, p. 941-73.
KREPS, David. A course of microeconomics theory. New York: Harvester Wheatsheaf, 1994.

MISHKIN, Frederic S. Moedas, Bancos e Mercados Financeiros. Rio de Janeiro: LTC, 2000.
RASMUSEN, Eric. Games and Information An Introduction to Game Theory. Cambridge: Blackwell, 1992.

STIGLITZ, Joseph E.. Information and Economic Analysis: A perspective. The Economic Journal v. 95. 1985, p. 21-41.

Por Alexsandro Rebello Bonatto em 11 de dezembro de 2008.
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